Os EUA não derrotaram o fascismo na Segunda Guerra Mundial, eles discretamente o internacionalizaram.

Arte de Felipe Aiello


Por Gabriel Rockhill


“Os E-U-A se estabeleceram como o inimigo mortal de todos os governos populares, de todas as mobilizações socialistas-científicas da consciência, de toda atividade anti-imperialista no planeta. ” 

-George Jackson 

Um dos mitos fundadores do mundo contemporâneo europeu ocidental e estadunidense é que o fascismo foi derrotado na Segunda Guerra pelas democracias liberais e, particularmente, pelos Estados Unidos. Com os subsequentes julgamentos de Nuremburg e a paciente construção de uma ordem liberal mundial, um bastião foi erguido – aos trancos e barrancos, e com a constante ameaça da regressão – contra o fascismo e o seu irmão gêmeo do mal no Leste. A indústria cultural americana repetiu essa narrativa ad nauseam, gestando-a em um Kool-Aid ideológico e açucarado, canalizando-a para cada casa, barraco e esquina com uma TV ou um smartphone, incansavelmente justapondo o mal supremo do nazismo à liberdade e prosperidade da democracia liberal. 

O registro material sugere, contudo, que esta narrativa é na verdade baseada em um falso antagonismo, e que uma mudança de paradigma é necessária para que se possa entender a verdadeira história do liberalismo e fascismo realmente existentes. Este último, como veremos, longe de ter sido erradicado ao fim da Segunda Guerra, foi na verdade atualizado, ou ainda reimplantado, para servir sua função histórica primária: destruir o comunismo profano e sua ameaça ao projeto civilizatório capitalista. Uma vez que os projetos coloniais de Hitler e Mussolini se tornaram tão descarados e erráticos, já que deixaram de jogar mais ou menos limpo de acordo com as regras liberais do jogo para abertamente quebrá-las e desembestarem por aí, passou-se a entender que a melhor forma de construir o fascismo internacionalmente era o fazer sob uma cobertura liberal, ou seja: através de operações clandestinas que mantém uma fachada liberal. Apesar disso provavelmente soar como uma hipérbole àqueles cujo entendimento da história foi dirigido por uma ciência social burguesa que foca, quase exclusivamente, no governo visível e na previamente mencionada cobertura liberal, a história do governo invisível do aparato de segurança nacional sugere que o fascismo, longe de ter sido derrotado na Segunda Guerra, foi, com sucesso, internalizado. 

Os Arquitetos do Fascismo Internacional 

Quando os Estados Unidos entraram na Segunda Guerra, o futuro diretor da CIA, Allen Dulles, lamentou que o seu país estava lutando contra o inimigo errado. Os nazistas, ele explicou, eram cristãos arianos pró-capitalismo, enquanto o verdadeiro inimigo era o comunismo profano e sua posição anti-capitalista. Até porque os EUA tinham sido, até somente 20 anos antes, parte de uma intervenção militar massiva na URSS, quando quatorze países capitalistas decidiram –nas palavas de Winston Churchill– “estrangular o bebê bolchevique em seu berço. ” Dulles entendia, como muitos de seus colegas no governo estadunidense, que o que mais tarde ficou conhecida como a Guerra Fria foi, na verdade, a velha guerra, como Michael Parenti argumentou convincentemente: na qual estiveram lutando contra o comunismo desde sua implantação.  

Ao fim da Segunda Guerra, o general Karl Wolff, anteriormente a mão direita de Himmler, foi conversar com Allen Dulles em Zurique, onde ele estava trabalhando para o Escritório de Serviços Estratégicos, ou OSS, a organização precursora da CIA. Wolff sabia que a guerra estava perdida, e quis evitar ser levado à justiça. Dulles, ao contrário, queria os nazistas na Itália sob o comando de Wolff’s para baixar suas armas perante os Aliados e ajudassem os americanos em sua luta contra o comunismo. Wolff, que foi o componente da SS de mais alto cargo a sobreviver à guerra, ofereceu à Dulles a promessa de desenvolver, com sua equipe nazista, uma rede de inteligência contra Stalin. Foi concordado que o general, que teve papel central em supervisionar a máquina genocida nazista, e que expressou seu “grande contentamento” ao garantir trens de carga para transportar 5000 judeus por dia para Treblinka, estaria protegido pelo futuro diretor da CIA, que o ajudou a evitar os julgamentos de Nuremberg. 

Wolff estava bem longe de ser o unico grande oficial nazista protegido e reabilitado pela OSS-CIA. O caso de Reinhard Gehlen é particularmente pertinente. Este general no Terceiro Reich esteve no comando do Fremde Heere Ost, o serviço de inteligência nazista contra os soviéticos. Após a guerra ele foi recrutado pela OSS-CIA e se encontrou com todos os grandes arquitetos do Estado de Segurança Nacional pós-guerra: Allen Dulles, William Donovan, Frank Wisner e o presidente Truman. Ele foi elevado à supervisão do primeiro serviço de inteligência alemão após a guerra, e procedeu contratando vários de seus colaboradores nazistas. A Gehlen Org, ou Organização Gehlen, como foi conhecida, acabaria por se tornar o núcleo do serviço de inteligência alemão. Não é claro quantos criminosos de guerra este condecorado nazista contratou, mas Eric Lichtblau estima que aproximadamente quatro mil agentes nazistas foram integrados à rede supervisionada pela agência de espionagem americana. Com um fundo anual de meio milhão de dólares providos pela CIA nos primeiros anos após a guerra, Gehlen e seus fortes homens foram capazes de agir sem consequências. Yvonnick Denoël explicou essa reviravolta com memorável clareza: “É difícil entender que, já em 1945, o exército e o serviço de inteligência americano recrutou sem escrúpulos antigos criminosos nazistas. A equação era, contudo, bastante simples à época: os Estados Unidos tinham acabado de derrotar os nazistas com a ajuda dos soviéticos. O plano era, dali em diante, derrotar os soviéticos com a ajuda dos antigos nazistas. ” 

A situação era parecida na Itália pelo acordo de Dulles com Wolff ter sido parte de um empreendimento ainda maior, chamado Operation Sunrise (Operação Nascer do Sol), que mobilizou nazistas e fascistas a acabar a Segunda Guerra Mundial na Itália (e começar a Terceira Guerra Mundial por todo o mundo). Dulles trabalhou intimamente com o futuro diretor de contra inteligência da CIA, James Agleton, que estava então operando na Itália pela OSS. Estes dois homens, que mais tarde se tornariam dois dos mais poderosos atores políticos do século XX, mostraram do que eram capazes nessa apertada colaboração entre o serviço de inteligência americano, os nazistas e os fascistas. Angleton, perto do fim, recrutou fascistas para acabar a guerra na Itália para minimizar o poder dos comunistas. Valerio Borghese foi um dos seus contatos chaves pois, na ditadura de Mussolini, este fascista linha dura esteve pronto para ajudar os americanos em seu problema anti-comunista, e ele se tornou um dos principais representantes internacionais do fascismo pós-guerra. Agleton diretamente o salvou da mão dos comunistas, e ao homem conhecido como Principe Negro foi dada a oportunidade de continuar a guerra contra a esquerda radical sob uma nova bandeira: a CIA. 

Uma vez acabada a guerra, importantes oficiais da inteligência dos EUA, incluindo Dulles, Wisner e Carmel Offie, “trabalharam para assegurar que a desnazificação tivesse uma extensão limitada”, de acordo com Frédéric Charpier: “Generais, oficiais sêniores, políticos, donos de indústrias, advogados, economistas, diplomatas, acadêmicos e os reais criminosos de guerra foram poupados e colocados de volta em suas posições. ” O homem em comando do Plano Marshall na Alemanha, por sua vez, era um antigo conselheiro de Hermann Göring, o comandante em controle da Luftwaffe (força aérea). Dulles elaborou uma lista de altos funcionários do estado nazista a serem protegidos e posarem como oponentes de Hitler. A OSS-CIA atuou para reconstruir os estados administrativos na Alemanha e na Itália com seus aliados anti-comunistas. 

Eric Lichtblau estima que mais de 10000 nazistas foram capazes de imigrar para os Estados Unidos no período do pós-guerra (pelo menos 700 membros oficiais do partido nazista foram permitidos de entrar nos EUA nos anos 30, enquanto refugiados judeus estavam sendo barrados). Para além de umas poucas centenas de espiões nazistas e milhares de pessoas ligadas à SS, a Operação Clipe de Papel, que começou em Maio de 1945, trouxe, pelo menos, 1600 cientistas nazistas para os EUA com suas famílias. Este empreendimento almejou recuperar as grandes mentes da máquina de guerra nazistas e realocar suas pesquisas em foguetes, aviação, armas químicas e biológicas, entre outros artefatos, à serviço do Império Americano. A Agência Conjunta de Objetivos de Inteligência foi oficialmente desenvolvida para recrutar nazistas e encontrar posições para eles em centros de pesquisas, no governo, no exército, nos serviços de inteligência ou em universidades (pelo menos 14 universidades participaram, incluindo Cornell, Yale e MIT). 

Apesar do programa oficialmente não incluir nazistas ferrenhos, pelo menos no começo, é fato que ele possibilitou a imigração de químicos da IG Farben (que supriu os gases mortais usados em campos de exterminação), cientistas que usaram escravos em campos de concentração para fazer armas, e doutores que participaram de terríveis experimentos em judeus, ciganos, comunistas, homossexuais e outros prisioneiros de guerra. Estes cientistas, que foram descritos por um oficial de dentro do Departamento de Estado, que se opunha à Operação Clipe de Papel, como sendo os “anjos da morte de Hitler”, foram recebidos de braços abertos na terra da liberdade. À eles foram dadas boas acomodações, um laboratório com assistentes e a promessa de cidadania se seus trabalhos dessem frutos. Foram com tudo para conduzir pesquisas que foram usadas na construção de mísseis balísticos, bombas de gás sarin, assim como transformar a peste bubônica em arma. 

A CIA também colaborou com MI6 para montar armadas anticomunistas em todo país da Europa Ocidental. Sob o pretexto de uma potencial invasão pelo Exército Vermelho, a ideia era treinar e equipar redes de milícias secretas ilegais, que deveriam permanecer atrás das linhas inimigas se os russos se movessem para o leste. Eles iriam, assim, serem ativados no novo território ocupado e seriam carregados com missões de exfiltração, espionagem, sabotagem, propaganda, subversão e combate. As duas agências trabalharam com a OTAN e os serviços de inteligência de vários países do leste europeu para construir esta vasta organização secreta, prover numerosas armas e munições e equipar seus soldados das sombras com tudo que eles precisassem. Para tanto, recrutaram nazistas, fascistas, colaboracionistas e outros membros anticomunistas da extrema direita. Os números variam de acordo com o país, mas são estimados entre poucas dúzias e várias centenas, ou ainda milhares, por país. De acordo com uma reportagem do programa de televisão Retour aux sources, existem 50 unidades de redes desses soldados na Noruega, 150 na Alemanha, mais de 600 na Itália e 3000 na França. 

Esses reacionários treinados seriam mais tarde instruídos a cometer ou coordenar ataques terroristas contra a população civil, cuja culpa seria atribuída aos comunistas, para, dessa forma, justificar repressões brutais da lei. De acordo com os números oficiais na Itália, onde essa estratégia de tensão foi particularmente intensa, houveram 14,591 atos de violência politicamente motivados entre 1969 e 1987, que resultaram na morte de 491 pessoas e no ferimento de 1181. Vincenzo Vinciguerra, um membro do grupo de extrema direita Ordine Nouvo e o autor do atentando à bomba perto de Peteano, em 1972, explicou que o grupo fascista “Avanguardia Nazionale, assim como o Ordine Nouvo, estavam sendo mobilizados à esta batalha urbana como parte de uma estratégia anticomunista originária não de organizações divergentes das instituições do poder, mas do Estado em si, e especificamente dentro do âmbito das relações do estado dentro da Aliança Atlântica. ” Uma comissão parlarmentar italiana que empreendeu uma investigação sobre essas milícias secretas na Itália chegou à seguinte conclusão em 2000: “Estes massacres, esses atentados, essas ações militares foram organizadas ou promovidas ou assistidas por homens dentro das instituições de estado italianas e, como foi descoberto mais recentemente, por homens conectados com braços da inteligência dos Estados Unidos. ” 

O departamento de Segurança Nacional dos EUA também estava envolvido em empreender rotas de fuga que emigrassem fascistas da Europa e os permitisse reassentar em paraísos/espaços seguros pelo mundo, em troca de fazerem o seu trabalho sujo. O caso de Klaus Barbie é um dentre mil, mas nos diz bastante sobre o funcionamento interno do processo. Conhecido na França como “o açougueiro de Lyon”, ele foi o diretor da central da Gestapo que lá havia por dois anos, inclusive quando Himmler deu a ordem para deportar pelo menos 22,000 judeus da França. Esse especialista em “táticas aprimoradas de interrogatório”, conhecido por torturar até à morte o coordenador da Resistência Francesa, Jean Moulin, organizou a primeira batida policial na União Geral dos Judeus na França, em fevereiro de 1943, e o massacre de 41 crianças refugiadas judias em Izieu em abril de 1944. Antes de chegar em Lyon, de acordo com Alexander Cockburn e Jeffrey St. Clair, ele levou esquadrões da morte que mataram mais de um milhão de pessoas na Frente Oriental. Mas após a guerra, o homem que esses mesmos autores descrevem como o terceiro da lista dos criminosos da SS mais procurados esteve trabalhando para o Corpo de Contra Inteligência (CIC) do exército dos EUA. Ele foi contratado para ajudar a construir essas milícias ao recrutar outros nazistas, assim como ao espionar os serviços de inteligência francesa nas regiões alemãs controladas pela França e pelos Americanos.  

Quando a França percebeu o que estava acontecendo e exigiu a extradição de Barbie, John McCloy, o mais alto comissário dos EUA na Alemanha, recusou sob o pretexto de que essas alegações eram baseadas em boatos. Mesmo assim, acabou por se provar muito custoso, simbolicamente, manter um açougueiro como Barbie na Europa, então ele foi mandado para a América Latina em 1951, onde ele conseguiu continuar sua ilustre carreira. Assentado na Bolívia, ele trabalhou para as forças de segurança do ditador militar René Barrientos e para o Ministro do Interior e com ala de contra insurgência do Exército Boliviano sob o governo ditatorial de Hugo Banzer, antes de ativamente participar do Golpe da Cocaína em 1980 e se tornar o diretor das forças de segurança sob o comando do General Meza. Durante toda sua carreira, ele manteve relações próximas com seus salvadores do departamento de Segurança Nacional dos EUA, tendo um papel central na Operação Condor, o projeto de contra insurgência que reuniu ditaduras latinoamericanas, com o patrocínio dos Estados Unidos, para violentamente destruir quaisquer tentativas de revoltas igualitárias vindas de baixo. Ele também ajudou a desenvolver o império de drogas na Bolívia, incluindo gangues organizadas e narco-mercenários que ele batizou de Los novios de la muerte, cujos uniformes se inspiravam nos da SS. Ele viajou livremente durante os anos 60 e 70, visitando os EUA pelo menos sete vezes, e é bastante provável que tenha tido um papel na caçada humana organizada pela CIA para matar Ernesto “Che” Guevara. 

O mesmo padrão de integrar fascistas na guerra global contra o comunismo é prontamente identificável no Japão, cujo sistema de governo antes e durante a guerra foi descrito por Herbert P. Bix como um “fascismo imperial”. Tessa Morris-Suzuki demonstrou convincentemente a continuidade dos serviços de inteligência detalhando como o Estado de Segurança Nacional dos EUA supervisionaram e gerenciaram a organização KATO. Essa rede de inteligência privada, muito parecida com a da organização Gehlen, era fechada com antigos membros da liderança dos serviços militares e de inteligência do Japão, incluindo o diretor de inteligência da Armada Imperial (Arisue Seizō), que compartilhava, com seu contato direto americano (Charles Willoughby), uma grande admiração por Mussolini. As forças de ocupação dos EUA também cultivaram estreitas relações com oficiais seniores da comunidade de inteligência civil do Japão durante à guerra (mais notavelmente, Ogata Taketora). Esta notável continuidade entre o Japão pré e pós-guerra levou Morris-Suzuki e outros acadêmicos a definir a história japonesa em termos de um “regime de guerra contínua” significando um regime que continuou de antes até depois da guerra. Esse conceito também nos permite ter noção do que estava acontecendo acima do chão no reino da governabilidade visível. Para fins de concisão, basta citar o caso notável do homem conhecido como o “Diabo de Shōwa”, por sua brutal gerência de Manchukuo (a colônia japonesa no nordeste da China): Nobusuke Kishi. Um grande admirador da Alemanha Nazista, Kishi foi elevado à Ministro das Munições pelo Primeiro Ministro Hideki Tojo em 1941, sob a ordem de preparar o Japão para uma guerra total contra os EUA, e foi ele quem assinou a oficial declaração de guerra contra os norte-americanos. Após cumprir pouco tempo de prisão como um condenado de guerra na era do pós-guerra, ele foi reabilitado pela CIA, junto de seu companheiro de cela, o chefão do crime organizado Yoshio Kodama. Kishi, com o suporte e generosos fundos financeiros de seus contatos, tomou controle do Partido Liberal, transformou-o em um clube de direita de antigos líderes do Japão imperial, e se alçou para virar o Primeiro Ministro. “O dinheiro (da CIA) fluiu por pelo menos 15 anos, sob o governo de quatro presidentes americanos, ” escreve Tim Wiener, “e ajudou a consolidar o poderio do partido pelo resto da Guerra Fria. ” 

Os serviços de segurança nacional dos EUA também fundaram uma rede global de educação para treinar combatentes pró-capitalistas – as vezes sob à liderança de nazistas e fascistas experientes – nas técnicas testadas e comprovadas de repressão, tortura e desestabilização, assim como de propaganda e guerra psicológica. A famosa Escola das Américas foi fundada em 1946 com a meta explícita de treinar uma nova geração de guerreiros anticomunistas por todo o mundo. De acordo com alguns, essa escola tem à distinção de ter educado o maior número de ditadores na história mundial. Quaisquer que seja o caso, é parte de uma rede institucional muito maior. É válido mencionar, por exemplo, as contribuições educacionais do Programa de Segurança Pública: “por aproximadamente 25 anos”, escreve o ex-associado da CIA John Stockwell, “a CIA, […] treinou e organizou polícias e braços paramilitares por todo o globo em técnicas de controle populacional, repressão e tortura. Escolas foram criadas nos Estados Unidos, Panamá e Ásia, dos quais se graduaram dezenas de milhares de estudantes. Em alguns casos, antigos oficiais nazistas do Terceiro Reich de Hitler eram usados como instrutores. ” 

Fascismo Se Torna Mundial Sob a Promessa Liberal 

O Império Americano também, inclusive, teve papel central na construção do fascismo internacional ao proteger militantes de direita e os alistar na Terceira Guerra Mundial contra o “comunismo”, uma “etiqueta” plástica estendida a qualquer orientação política que entrasse em conflito com os interesses da classe dominante capitalista. Essa expansão internacional dos modos fascistas de governar produziu a proliferação de campos de concentração, terroristas e campanhas de tortura, guerras ilegais, regimes ditatoriais, grupos vigilantes e redes de crime organizado por todo o mundo. Os exemplos poderiam ser enumerados ad nauseam, mas posso simplesmente apenas citar o testemunho de Victor Marchetti, que foi um oficial sênior da CIA de 1955 até 1969: “Nós estamos suportando todo ditadorzinho meia-boca, junta militar e oligarquia que existiu no Terceiro Mundo, desde que prometessem, de alguma forma, manter o status quo, o que seria benéfico para os interesses geopolíticos, militares, econômicos privados e outros interesses especiais dos EUA.  

Os registros da política externa dos EUA desde a Segunda Guerra são provavelmente a melhor medida de sua ilustre contribuição para a internacionalização do fascismo. Sob a bandeira da democracia e da liberdade, os Estados Unidos, de acordo com William Blue

  • Esforçou-se para derrubar mais de 50 governos estrangeiros. 
  • Interferiu grosseiramente nas eleições democráticas em pelo menos 30 países. 
  • Tentou assassinar mais de 50 líderes estrangeiros. 
  • Soltou bombas sobre pessoas em mais de 30 países. 
  • Tramaram para suprimir um movimento populista ou nacionalista em 20 países. 

A Associação para Dissidência Responsável, composta por 14 antigos oficiais da CIA, calcularam que sua agência foi responsável por matar um mínimo de 6 milhões de pessoas por meio de 3000 grandes operações e 10000 operações menores entre 1947 e 1987. Esses são exclusivamente homicídios, então os números não contam para mortes prematuras sob o sistema mundial capitalista apoiado pelo fascismo devido ao encarceramento em massa, tortura, desnutrição, falta de água potável, exploração, opressão, degradação social, doença ecológica ou doença curável (em 2017, de acordo com as Nações Unidas., 6,3 milhões de crianças e jovens adolescentes morreram por causas evitáveis ligadas às inadequações socioeconômicas e ecológicas no Capitaloceno, o que resulta em uma média de uma criança a cada 5 segundos). 

Para estabelecer a si mesmo como hegemonia militar global e cão de guarda internacional do capitalismo, o governo dos EUA e a Doutrina de Segurança Nacional têm contado com a ajuda do número significativo de nazistas e fascistas por eles integrados em sua rede global de repressão, incluindo os 1600 nazistas importados pelos EUA por meio da Operação Paperclip, os mais-ou-menos 4000 integrados na organização Gehlen, as dezenas ou mesmo centenas de milhares que foram reintegrados nos regimes “pós-guerra”—ou melhor, transguerra—em países fascistas, o grande número ao qual foi dado livre trânsito no jardim do Império—a América Latina—e em outros lugares, como também os milhares ou dezenas de milhares integrados em células stay-behind da OTAN. Essa rede global de assassinos anticomunistas experientes também tem sido usada para treinar exércitos de terroristas ao redor do planeta, capacitando-os a participar de guerras sujas, golpes de Estado, esforços de desestabilização, sabotagem, e campanhas de terror. 

Tudo isso foi feito sob a bandeira da democracia liberal, e com o suporte de suas mais poderosas indústrias culturais. O verdadeiro legado da Segunda Guerra, longe de ser sobre uma pretensa ordem mundial liberal que derrotou o fascismo, é o de que o verdadeiro fascismo internacional se desenvolveu sob a capa liberal com o objetivo de tentar destruir aqueles que realmente lutaram e venceram a guerra contra o fascismo: os comunistas. 

Gabriel Rockhill é um filósofo franco-americano, crítico cultural e ativista. Ele é o Diretor fundador do “Critical Theory Workshop” e é professor de filosofia na Universidade Villanova. Seus livros incluem “Counter-History of the Present: Untimely Interrogations into Globalization, Technology, Democracy” (2017), “Interventions in Contemporary Thought: History, Politics, Aesthetics” (2016), “Radical History & the Politics of Art” (2014) and “Logique de l’histoire” (2010). Para além de seus trabalhos acadêmicos, ele ativamente se engaja em atividades extra-acadêmicas no mundo da arte e da militância, como também é um contribuinte regular ao debate intelectual público. Siga-o no twitter: @GabrielRockhill 


Tradução: Caeli Corvere
Revisão: Leonardo Mendonça
Original

Alain Badiou: para Aragon, o Partido Comunista é « poetizado ». Assim, não é mais somente uma organização política. O que é, então?

Alain Badiou é um filósofo e dramaturgo francês nascido em Rabat, no Marrocos, no dia 17 de janeiro de 1937. Professor emérito na Escola Normal Superior, é fundador do Centro Internacional de Estudo da Filosofia Francesa Contemporânea. Em 1988, publicou uma suma filosófica, O ser e o evento. Sua obra chamada Sarkozy é o nome de quê? (De quoi Sarkozy est-il le nom?) (2007) tornou-o conhecido do grande público.  

O filósofo acaba de publicar Radar poesia (Gallimard), um ensaio sobre a obra poética de Louis Aragon. Boa oportunidade para encontrá-lo, evocar com ele o poeta e fazer-lhe algumas perguntas sobre a realidade atual.
Pode causar espanto, e com razão, uma leitura tardia de Aragon-poeta pelo filósofo Alain Badiou. Já se sabia de seu interesse fundamental por Mallarmé. Olhando mais de perto, porém, surge uma lógica que tem a ver, em síntese, com seu próprio percurso intelectual, desde a social-democracia de « esquerda » até o comunismo, tudo isso à luz de Maio de 68. Hoje, Alain Badiou procura compreender como o poeta Aragon foi « organizado ». Ele destaca três engajamentos, em sua obra: a política, o amor e a arte, esta última uma « ideia-causa » central, enquanto os dois primeiros são « objetos-causas », denominados, respectivamente, Partido Comunista Francês e Elsa Triolet.



O que o levou a fazer uma releitura atenta da obra poética de Louis Aragon? Em princípio, seria de se esperar que o tema fosse Mallarmé – é difícil deixar de lado os preconceitos! 

Alain Badiou O preconceito seria achar que para se interessar por Aragon fosse necessário abandonar Mallarmé! Pratiquei Mallarmé por muito tempo, e escrevi sobre ele parágrafos bastante copiosos. Mas, ao mesmo tempo, eu amava e citava com bastante frequência [Vitor] Hugo. Acontece que, na língua francesa, há dois tipos de poetas: aqueles que vão da sensação à abstração, como Mallarmé, quando diz extrair de todas as flores sensíveis « o ausente de todos os buquês », e os que fazem surgir da língua, conceitual ou narrativa, uma pura essência sensível, como Hugo, que prepara, em um lugar distante, o surgimento do « cardo azul das areias1 ». Sem dúvida, Aragon se situa do lado de Hugo. Para mim, trata-se de uma revelação recente: foi um pouco por acaso, ao encontrar o poema em louvor do Partido Comunista intitulado « Como a água se tornou clara », que percebi a grandeza absolutamente original de Aragon, e comecei a lê-lo sistematicamente. 

O que o levou a pensar que o poema, em Aragon, precisa de uma causa para ser « acionado »? 

Alain Badiou Contrariamente ao que algumas vezes já se disse, ao saudar ou vilipendiar o oportunismo e o virtuosismo em Aragon, quando eu o leio sempre sinto agitar-se na contracorrente do poema uma sensação, um problema, um tormento, uma certeza, uma ocasião que não se deve perder. Eu quis distinguir, de certa maneira, os registros reais dessas motivações subjetivas, e vi que, além da poesia em si, que é a mais difícil e também a mais fecunda de suas paixões, havia duas referências sólidas, objetivas, às quais ele voltava obstinadamente: o Partido Comunista e Elsa Triolet. E, inspirando-me em Lacan, dei o nome de « objetos-causas do desejo (de poesia) » a esses dois objetos. Tenho a impressão de que essa maneira de agir se mostrou fecunda.  

Foi ao reencontrar o poema em louvor do Partido Comunista intitulado « Como a água se tornou clara » que percebi a grandeza absolutamente original de Aragon. 

Em « Radar poésie », você escreve que « o comum da infelicidade abre para o comunismo ». O que você quer dizer, exatamente? 

Alain Badiou Sempre observei que as camadas mais pobres e mais expostas de uma sociedade são também aquelas em que se encontram as provas mais evidentes de ajuda mútua e solidariedade. O fato de uma desgraça ser vivida como uma coisa ‘comum’ atenua a ferida, em grande parte. Devemos, então, lembrar que « comunismo » carrega a palavra « comum », o que é comum. Afinal de contas, uma greve operária bem sucedida é uma greve que fortalece a união entre os operários a partir do que eles têm em comum: os empregos, a cadeia de produção, as cadências, a desigualdade programada dos salários, mesmo para trabalhos iguais, etc. É por isso que, quando eu explicava os mecanismos da mais-valia aos operários de Chausson, em Gennevilliers, em meados dos anos 70 do século passado, eles compreendiam prontamente o que eu dizia, porque isso remetia a uma experiência comum, feita em comum, do sobretrabalho. Da greve ao marxismo e inversamente, o que sustentava a circulação era o comum da desgraça. 

Alain Badiou Sim, para Aragon, que declara com força « meu Partido », o Partido Comunista é um apoio, uma sustentação da subjetividade que age. Quando o sujeito nele entra como em uma parte de si mesmo, como em « sua » casa, o Partido tem o poder de resolver os problemas, de superar contradições pessoais, por exemplo (« meu partido me devolveu as cores da França »), a contradição aparente entre o engajamento internacionalista e o patriotismo da Resistência. É por isso que pode haver essa quadra maravilhosa em que o Partido está, para o sujeito-Aragon, à altura do sonho, do coração, da embriaguez, do perfume, e, finalmente, da vida como tal: 

« Eu te saúdo (o Partido), fênix imortal de nossos sonhos 

Eu te saúdo, cor do coração força do vinho 

Perfume quando o vento do povo finalmente se levanta 

Invadindo a vida, enfim. » 

Voltemos às notícias quentes da atualidadeOnde está o comunismo, a « causa-ideia » comunista, nesta hora do capital globalizado? Você não insiste no que chama de « proletariado nômade »? 

Alain Badiou A ideia comunista está bem no início de sua terceira etapa, depois, a grosso modo: primeiramente sua invenção, entre os anos 1840 e o fim do século XIX, marcada pelo nome próprio Marx; em segundo lugar, sua primeira forma de realização, entre a revolução de 1917 e, digamos, os anos 1960, 1970 do século XX, sob a forma de Estado-Partido, por exemplo na Rússia e depois na China, etapa marcada pelo nome de Lenin; por fim, em terceiro lugar, cobrindo o fim do século XX e o início do século XXI, o esboço ainda muito obscuro de um comunismo distante do Estado, que carrega ativamente seu enfraquecimento, do qual a única experiência, porém tão precária e derrotada como foi a da Comuna de Paris, é a Revolução Cultural na China, via seu apogeu: a Comuna de Xangai – o que basta para que o terceiro nome-símbolo seja o de Mao Tse Tung. Inscrever-se nessa terceira sequência é, entre outras coisas, trabalhar constantemente tão perto quanto possível do nível mundial, do mercado mundial, evitando todas as armadilhas do nacionalismo. Quanto a isso, a atenção dada ao caráter mundial do mercado da força de trabalho, ao fato de que aqui mesmo uma parte considerável do proletariado não provém de outro lugar, e sim da França, seja imediatamente, seja por descendência, é um critério da maior importância, diante de uma circulação de mercadorias e de moeda que se tornou absolutamente mundial. É por isso que falo de um proletariado nômade. 

Nunca houve alternativa ao capitalismo que não fosse o comunismo. Tudo o que se apresentou nesse sentido não passou de uma variável de ajustamento do capitalismo.  

A ideia comunista constitui uma alternativa à única opção que nos vendem como « credivelmente » possível, que é a busca constante do capitalismo? 

Alain Badiou Nunca houve alternativa ao capitalismo que não fosse o comunismo. Tudo o que se apresentou nesse sentido, como a social-democracia, por exemplo, nunca passou de uma variável de ajustamento do capitalismo, sua roda sobressalente em caso de dificuldade local. O que confunde as pegadas hoje é a passagem muito complexa entre a segunda etapa, centrada no Partido-Estado, e a terceira, que deve distanciar-se desse centramento, e voltar às questões intrínsecas do comunismo: o fim do trabalho assalariado, o enfraquecimento do Estado, o fim das « grandes diferenças », como a que existe entre trabalho manual e trabalho intelectual, ou entre tarefas de execução e tarefas de comando… Tudo isso deverá ser levado ao centro das ações comunistas, ao mesmo tempo que a palavra de ordem de supressão da propriedade privada de tudo o que tem um valor comum. Ao mesmo tempo, e não indefinidamente adiado para mais tarde.  

Você continua pensando que elegemos sempre « representantes do poder »? 

Alain Badiou No nível do Estado, da gestão geral, não resta a menor dúvida. Cite-me um só Presidente que não tenha sido um gestor da ordem estabelecida burguesa! Mitterrand, eleito em 1981 para outra coisa, mostrou desde 1983 que apoiaria sem hesitação, com sua autoridade e influência, o retorno à ordem capitalista. Imagine que foi em 1986 que o governo Chirac criou o que funcionou como escritório central das privatizações! E lembremos o orgulhoso Jospin, declarando aos operários grevistas da empresa Michelin: « Ora, francamente, nós não vamos voltar à economia administrada! » Se, além disso, as coisas fossem diferentes, não dá para ver como é que a França poderia apoiar sua inclusão sem percalços no mercado mundial. É claro que restaram algumas margens de ação no nível municipal. Mas isso também está desaparecendo: veja o que acontece com a desindustrialização em massa em toda a periferia de Paris… Não há e nem haverá nenhuma orientação central comunista no quadro de uma democracia parlamentar. É preciso fazer uma campanha ativa para desacreditar totalmente o voto, e assim tornar claramente ilegítimos,  virtual e totalmente minoritários os representantes do poder das fortunas do CAC 402

Como estão hoje suas relações com Marx? 

Alain Badiou Excelentes em todos os sentidos. Espanta-me constatar que, mesmo que o melhor manual do militante comunista continue sendo O livro vermelho, composto de textos de Mao, a melhor introdução à compreensão geral do comunismo, articulada com a história da luta de classes e a análise do capitalismo, ainda é O Manifesto do Partido Comunista3

O que nos diz a crise sanitária mundial em que nos encontramos?  

Alain Badiou Não muita coisa, para falar a verdade. As epidemias atingem as coletividades humanas desde sempre. Em certos casos, como o da varíola, que massacrava os seres humanos aos milhões, as epidemias foram também erradicadas por uma vacina descoberta no século XVIII. É evidente que a mundialização do mercado capitalista e os meios de transporte transcontinentais difundiram o vírus a uma velocidade antigamente desconhecida. Também é claro que a dimensão de classe está perfeitamente visível, entre o burguês que se refugia em sua casa de campo e o pobre, em particular justamente o proletário nômade, que está na rua ou que vive amontoado com outros em uma moradia semiclandestina. Entretanto, como nas situações de guerra, um governo, seja ele qual for, tenta manter equilibrada a balança entre o risco, mortal ou sanitário, e a continuação da atividade econômica. Não há, nesse assunto, nenhuma solução milagrosa, sobretudo quando o vírus ainda não é completamente conhecido nem dominado, em termos científicos.  

De que Trump foi o nome, e o que será o pós-Trump, do seu ponto de vista? 

Alain Badiou Trump foi o nome de uma doença do parlamentarismo ou, mais precisamente, do fato de que o parlamentarismo só funciona corretamente se houver, claramente, dois partidos: republicanos e democratas, conservadores e trabalhistas, direita e esquerda… Hoje, a dificuldade é que o poder político ainda é nacional, enquanto a realidade econômica diz respeito a uma concentração de capital que funciona em escala mundial. Essa contradição produziu uma instabilidade dos partidos parlamentares nacionais. Na França, por exemplo, a direita está competindo com uma extrema-direita vigorosa, enquanto a esquerda se encontra em um estado avançado de decomposição. Nos Estados Unidos, da mesma forma, um aventureiro de extrema-direita conseguiu “representar” a direita. Fizemos face a uma espécie de fascismo eleitoral ou, melhor dizendo, um fascismo “democrático”, já que se trata de uma eleição regular. O pós-Trump, com o pálido Biden, nada mais é que um retorno à normalidade, provavelmente instável, visto que a base eleitoral de Trump continua muito significativa. 

Com essa única regra do lucro, há, necessariamente, predação e destruição na utilização dos recursos. Conclusão: a ecologia será comunista, ou então simplesmente não será.  

Às vezes entende-se um discurso bastante duro sobre a “mitologia ecologista”. Isso quer dizer que só existe o mitológico na ecologia?  

Alain Badiou É evidente que as invocações de nosso “planeta” como uma divindade ameaçada, as profecias do tipo bíblico, o gosto pela catástrofe, tudo isso lembra as religiões, efetivamente. A menina ainda bem jovem que prega em favor da natureza (Greta Thunberg – nota da redação) parece a Bernadete de Lurdes. O que é real é que, como a produção é submetida exclusivamente à regra geral do lucro e é conduzida irresistivelmente pela lógica violenta da concentração do capital, existe necessariamente algo de predador e destrutivo no saque dos recursos alimentares, minerais, petrolíferos, etc. Mas a única conclusão que se pode tirar é que a ecologia será comunista, ou então simplesmente não será.  

Que diferenças fundamentais você vê entre o século em que nasceu, o século XX, e este novo século?  

Alain Badiou O século XX foi o século das guerras mundiais, todas provocadas pela rivalidade dos grandes imperialismos, e das revoluções comunistas, engendrando, ao mesmo tempo, esperança de emancipação e impasses finais. O século atual não mudou nada do lado do capital, mas, quanto ao comunismo, ele deve ser reinventado. Daí resulta uma “cor” geral menos propícia à coragem e mais propícia às diversas formas do obscurantismo. 

SUGESTÕES DO AUTOR  
• « Les Poètes », de Louis Aragon, coleção « Poésie-Gallimard » (n° 114), 1976. 
• « Les Châtiments », de Victor Hugo, Garnier-Flammarion, 1978.



Tradução: Maria Betânia F. Champagne
Publicado em 18 de dezembro de 2020  
Original




ODEIO O ANO NOVO – Antonio Gramsci


Por Antonio Gramsci

Publicado originalmente no jornal Avanti!, no dia 1º de janeiro de 1916, na coluna “Sotto la Mole” (“Sob a Mole”, referência a Mole Antonelliana, edifício arquitetônico símbolo de Turim, Itália).


Toda manhã, quando acordo coberto pela mortalha do céu, sinto que para mim é ano novo.

Por isso, odeio estes Anos Novos que surgem como datas de vencimento de dívida, e que fazem da vida e do espírito humano uma agenda comercial, com seu organizadíssimo saldo final, seus lucros remanescentes, e sua cotação para a nova gestão. Eles nos fazem perder a continuidade da vida e do espírito. Acabamos acreditando seriamente que entre um ano e outro há uma espécie de ruptura, que uma nova história se inicia; fazemos promessas, nos arrependemos das que não cumprimos, etc. É isso o que há de errado nas datas em geral.

Dizem que a cronologia é a ossatura da história. Tudo bem. Mas precisamos também admitir que há quatro ou cinco datas fundamentais, que toda boa pessoa conserva fixadas no cérebro, as quais cometeram trapaças contra a história. Elas também são Anos Novos: O Ano Novo da história romana, o Medieval, o da Idade Moderna.

E eles se tornaram tão intrusivos e tão fossilizantes que muitas vezes nos damos conta de que, por vezes, pensamos que a vida na Itália começou em 752, e que 1490 ou 1492 são como montanhas que a humanidade cruzou de repente, encontrando-se em um novo mundo, entrando em uma nova vida. Assim, a data se torna um ônus, um parapeito que nos impede de ver que a história continua a se desenvolver ao longo da mesma linha fundamental imutável, sem alterações bruscas, tal qual quando no cinema o filme do projetor se rasga e há um enorme intervalo de luz ofuscante.

Por isso odeio o Ano Novo. Desejo que toda manhã seja um ano novo para mim. Todo dia desejo fazer as contas comigo mesmo, e todo dia quero me renovar. Nenhum dia separado para o repouso. As folgas eu mesmo escolho, quando me sentir embriagado pela vida intensa e desejar dar um mergulho na animalidade, para dela tirar novo vigor.

Nenhuma mesquinharia espiritual. Gostaria que todas as horas da minha vida fossem novas, apesar de ligadas às que já se passaram. Nenhum dia de festa, com seus ritmos coletivos obrigatórios, para ter que compartilhá-lo com estranhos aos quais não dou a mínima. Porque “celebraram os avós de nossos avós”, etc., “nós deveríamos também sentir a necessidade de celebrar”. Tudo isso me enoja.

Aguardo pelo socialismo também por esta razão. Porque colocará no lixo todas estas datas que hoje não têm mais nenhuma ressonância em nossos espíritos e, se outras forem criadas, serão ao menos nossas, e não as que deveríamos aceitar como uma herança da qual não temos nem o direito de fazer um inventário, tal como aceitaram nossos antepassados ignorantes.


Tradução: Danilo Mendes
Original
Arte: Jayu U

Slavoj Žižek – Hegel sobre o futuro, Hegel no futuro

Arte de Felipe Aiello


Por Slavoj Žižek

O ponto que quero defender é o de que Hegel é o filósofo mais aberto ao futuro, precisamente porque ele proíbe explicitamente qualquer projeto que diga como o nosso futuro deve parecer. Como ele diz ao fim do prefácio de sua Filosofia do Direito (1820), a filosofia só consegue pintar “cinza no cinza”, e “a coruja de Minerva apenas alça seu voo ao cair do crepúsculo”. Isto é, a filosofia só traduz retrospectivamente, num esquema conceitual “cinza” (sem vida), uma forma de vida que já atingiu seu pico e entrou em declínio – que está se tornando “cinza” ela mesma. Para colocar de forma curta e grossa, este é o porquê devemos rejeitar todas essas leituras de Hegel que veem em seu pensamento um modelo implícito de uma sociedade futura reconciliada consigo mesma, deixando para trás as alienações da modernidade. Chamo os que fazem essa leitura de ‘ainda-não-hegelianos’. 

Com sua mais recente obra-prima, The Spirit of Trust (2019), o filósofo estadunidense Robert Brandom se firmou como talvez o mais proeminente “ainda-não-hegeliano”. Para ele, Hegel traça um ideal que ainda não alcançamos: 

A principal e mais positiva lição prática da análise de Hegel sobre a natureza da modernidade – fruto de sua compreensão do Único Grande Evento na história da humanidade – é que, se digerirmos adequadamente as conquistas e fracassos da modernidade, podemos construir sobre eles novas e melhores instituições, práticas e egos autoconscientes – os quais são normativamente superiores, pois incorporam uma maior autoconsciência, uma compreensão mais aprofundada do tipo de ser que somos. (BRANDOM, 2019, p.456) 

Nessa linha, Brandom propõe três estágios de desenvolvimento ético histórico. No Estágio Um – das sociedades tradicionais – temos o Sittlichkeit (um termo hegeliano que significa uma ordem moral costumeira aceita como um fato da natureza), mas nenhuma subjetividade no sentido moderno (ou, como poderíamos chamá-la, individualidade). No Estágio Dois, temos a alienação: a subjetividade moderna ganha sua liberdade, mas é alienada dos fundamentos éticos de sua sociedade. Finalmente, no Estágio Três, que aparentemente está no horizonte, temos uma nova forma de Sittlichkeit, compatível com a subjetividade livre: 

Enquanto escrevia a Fenomenologia, Hegel vê o Geist [o Espírito do Mundo] começando a se consolidar no Estágio Dois. O objetivo da obra é possibilitar aos leitores a forma pós-moderna de autoconsciência que Hegel chama de “Conhecimento Absoluto” e, assim, começar a inaugurar o Estágio Três. A nova forma de autoconsciência explicitamente filosófica é apenas o começo do processo, porque novas práticas e instituições também serão necessárias para superar a alienação estrutural da vida moderna (BRANDOM, 2019, p.458). 

Sério? Então, o que dizer da insistência de Hegel de que a filosofia só pode pintar “cinza sobre cinza”, dado que, como a coruja de Minerva, só alça seu voo ao cair do crepúsculo – significando que a filosofia só pode entender a história depois dela ter acontecido? Aqui, Brandom fala, não como Hegel, mas como Marx: Saber Absoluto é para ele como o canto de um galo gaulês no novo amanhecer (como disse Marx sobre o pensamento revolucionário). Ele inaugura uma nova era social, quando “novas práticas e instituições também serão necessárias para superar a alienação estrutural da vida moderna”.  

Os três estágios de Brandom são gerados ao longo de dois eixos: Sittlichkeit ou não-Sittlichkeit e livre subjetividade moderna ou não-subjetividade. Isso dá a sociedade tradicional (Sittlichkeit sem subjetividade livre), a sociedade moderna (subjetividade livre sem Sittlichkeit) e a sociedade pós-moderna vindoura (Sittlichkeit com subjetividade livre). Brandom imediatamente levanta a questão do status da quarta possibilidade, que não se encaixa em nenhum desses três estágios: a situação sem Sittlichkeit e sem subjetividade livre. Ele pergunta: “O que há de errado com a ideia de alienação pré-moderna?” (BRANDOM, 2019, p.458). 

Mas por que ele lê automaticamente a ausência de subjetividade livre como “pré-moderna”? E quanto a uma opção propriamente pós-moderna de perder a subjetividade livre e, ainda assim, permanecer alienado pela moralidade da sociedade? Não é disso que se trata o totalitarismo? E não é este também o estado de que nos aproximamos com nosso autoritarismo digital? Não seria este um verdadeiro insight hegeliano sobre uma dialética da modernidade? Queremos superar a lacuna entre a moralidade de uma sociedade e uma subjetividade livre que não reconhece mais tal moralidade como sua; mas em vez de reuni-las em uma espécie de unidade sintética superior, perdemos ambas. Por exemplo, Stalin não prometeu implementar uma síntese entre um forte espírito comunitário e individualidade livre, prometendo liberdade real? E não foi o resultado a própria perda da liberdade, numa condição de total alienação? 

OFENSA E PERDÃO 

Brandom vê a chave para o Terceiro Estágio da sociedade – livre subjetividade integrada com a moralidade – na noção de “recordação que perdoa” implantada por Hegel no final do capítulo sobre o Espírito em sua Fenomenologia do Espírito (1807). A lacuna que aliena o sujeito atuante de seu “juiz severo” é superada através da reconciliação, alcançada não só através do agente que confessa seu pecado como também através do juiz que confessa sua participação naquilo que condena, pois, como diz Hegel, “O mal também é o olhar que vê o mal em toda parte”. 

A noção de Brandom de “recordação que perdoa” é especialmente útil hoje. Permite-nos ver o que é falso em alguns dos que defendem a “tolerância” e rejeitam o “discurso de ódio”. Uma pessoa politicamente correta que condena severamente aqueles que são acusados ​​de praticar “discurso de ódio” não é um caso contemporâneo exemplar de um julgamento moral rígido? Todos nós sabemos como esses julgamentos podem ser repentinos e cruéis – uma palavra errada, uma piada considerada inapropriada, e sua carreira pode ficar em ruínas. Lembre-se do que aconteceu recentemente com o crítico de cinema David Edelstein. A propósito da morte do diretor Bernardo Bertolucci, que gravou O Último Tango em Paris, Edelstein fez uma piada de mau-gosto em sua página privada no Facebook, acompanhada por uma imagem da cena mais notória do filme com Maria Schneider e Marlon Brando. Ele rapidamente apagou a postagem – antes mesmo do clamor público explodir, e não como uma reação a ele! Mas a atriz Martha Plimpton imediatamente tuitou para seus seguidores: “Demitam-no. Imediatamente.” – e foi o que aconteceu no dia seguinte: Fresh Air e NPR anunciaram que estavam cortando laços com Edelstein porque sua postagem tinha sido “ofensiva e inaceitável, especialmente dada a experiência de Maria Schneider durante as filmagens de O Último Tango em Paris.” 

Então, quais são as consequências (ou melhor, quais as regras não escritas a serem compreendidas a partir) desse incidente? Laura Kipnis observa que, primeiro, “não há imprudência no que diz respeito a uma ofensa imprudente” (The Guardian 22/12/18). Noutras palavras, esses atos não podem ser perdoados como sendo fruto de erros momentâneos; em vez disso, devem ser tratados como reveladores da verdadeira face do ofensor. E é por causa disso que, ao fazer uma ofensa dessas, você fica permanente marcado, por mais que peça perdão: “Um fracasso e você está fora. Uma postagem impensada nas redes sociais irá prevalecer sobre um histórico de 16 anos.” A única coisa que pode ajudar é um longo processo de autoavaliação e autocrítica: “Fracassar em re-provar tais atitudes te implica em crimes contra as mulheres”. Você tem que provar isso repetidas vezes, já que, como homem, você não é a priori confiável (“homens dirão qualquer coisa”). 

O que a “recordação que perdoa” significaria aqui? Os acusadores não teriam apenas que perdoar o agressor pelo ato de “discurso de ódio” pelo qual foi responsável; eles também devem confessar e renunciar ao seu próprio ódio. E é fácil de enxergar este grande ódio nas tais exigências, inexoravelmente politicamente corretas, de punição rápida – neste caso, há definitivamente mais ódio do que no próprio ato condenado. Uma paráfrase da frase de Hegel sobre o Mal se encaixa perfeitamente aqui: “O ódio reside no olhar que reconhece o ódio em todos os lugares”. 

Definitivamente, muito do discurso de ódio são exibições de arrogância condescendente, de ironia brutal e assim por diante, mas apenas muito raramente se trata só de puro ódio. E é sob esse pano de fundo que as duras condenações politicamente corretas acabam por interpretar mal suas próprias ações, pensando-as como um exercício bem fundamentado de justiça. Tais condenações não se preocupam em reconstruir o raciocínio que norteou a ação do agressor. Edelstein, por exemplo, talvez enxergasse sua postagem no Facebook como uma piada de mau gosto, mas não ofensiva. Isso significa que temos uma dualidade: de como as coisas eram para a consciência do ofensor e como eram “em si mesmas” – ou seja, aos olhos do juiz ou da pessoa ofendida. A mesma lacuna também está em ação na própria condenação da juíza politicamente correta, embora aqui seja uma lacuna entre como as coisas são representadas para a consciência dela (“Estou apenas fazendo um julgamento justo”) e como eles são “em si” (uma manifestação de ódio que visa a destruir a vida ou carreira do agressor). 

Peguemos outro exemplo. Em dezembro de 2016, ao saber da morte repentina de Carrie Fisher, Steve Martin tuitou: “Quando eu era jovem, Carrie Fisher era a criatura mais linda que eu já tinha visto. E ela se demostrou espirituosa e brilhante também.” Houve uma reação imediata. Martin foi acusado de “objetificar” Fisher, de focar em seus aspectos físicos em vez de em seus talentos ou impacto – um usuário no Twitter respondeu: “Acho que ela gostaria de ser lembrada por algo além da beleza. Como você quer ser lembrado?” Então Martin excluiu seu tweet… Mas é fácil reconstruir o raciocínio de Martin aqui: ele queria mostrar seu respeito por Fisher além de sua beleza: ele situa seu fascínio pela beleza de Fisher em seus primeiros encontros, depois dos quais ela imediatamente se torna “espirituosa e brilhante” – o ponto central de seu tweet é de que ela era mais do que apenas bonita. Uma postura “que recorda com perdão” iria repreendê-lo por não ter levado em conta o efeito de seu tweet, mas ainda assim o perdoaria, exigindo-lhe apenas que “suprassumisse” (um termo hegeliano) sua homenagem a Fisher formulando-a de uma forma mais apropriada. Nada disso acontece na rápida condenação que vê no tweet em questão apenas uma objetificação machista-chauvinista das mulheres. 

OS LIMITES DO PERDÃO 

Entretanto, existem limites claros para a noção de recordação que perdoa. Sendo mais uma vez curto e grosso: podemos “perdoar recordativamente” Hitler? E se a resposta for não, é porque Hitler não pode ser perdoado, ou porque nós ainda não estamos num nível tão elevado de reflexão ética para fazê-lo? A única maneira de fazer isso sem regressar à posição de uma “bela alma” que julga de uma posição apartada e desinteressada é endossar a segunda opção – que o nosso castigo dado a Hitler, que o coloca como uma pessoa má, deve ser uma determinação reflexiva do mal que persiste em nós mesmos – isto é, mostra o estado não-reflexivo da posição a partir da qual fazemos julgamentos. 

Notemos que muitos revisionistas de extrema-direita hoje tentam decretar um perdão recordativo de Hitler. Sim, dizem eles, Hitler incorreu em diversos erros terríveis; cometeu crimes horríveis; mas, ao fazer isso, ele só estava, no final das contas, lutando por uma boa causa (contra a corrupção capitalista encarnada nos judeus), embora de forma errada. Revisionistas também tentam balancear a responsabilidade de um jeito pseudo-hegeliano: não teriam os crimes de Hitler sido refletidos na unilateralidade da posição judaica – sua postura antissocial, sua falta de vontade em integrar-se à nação alemã? No entanto, é fácil construir uma versão mais racional, não-direitista-revisionista de como nós, que condenamos o nazismo, também devemos pedir perdão pelo mal em nossa própria perspectiva. Por exemplo, “O antissemitismo não era limitado apenas à Alemanha, mas era bem presente nas nações que estavam em guerra com a Alemanha, inclusive nas nossas”; ou, “a óbvia injustiça do tratado de Versalhes – um ato de vingança contra os alemães derrotados na primeira guerra mundial – contribuiu para a ascensão dos nazistas ao poder”; ou, num nível mais geral, “o fascismo surgiu das dinâmicas e antagonismos do capitalismo ocidental”. Embora devamos rejeitar totalmente essa linha de raciocínio, a solução definitivamente não é traçar uma linha entre os pecados que podem ser recordativamente perdoados e os pecados que são grandes demais para serem perdoados. Tal procedimento introduz uma dualidade totalmente em desacordo com a abordagem de Hegel. O que devemos fazer, em vez disso, é mudar a própria noção de perdão recordativo: privar tal noção de quaisquer ecos provocados pelo “você está perdoado, você não é mais realmente mau”. 

Brandom, é claro, levanta esse problema: 

Algumas coisas feitas pelas pessoas nos atingem e, mesmo após a devida reflexão, são simplesmente imperdoáveis. Nesses casos, embora possamos tentar mitigar as consequências das más ações, não temos a menor ideia de como discernir o surgimento de uma norma governante que poderíamos endossar. (BRANDOM, 2019, p. 716) 

E sua resposta imediata é: 

Mas, agora, devemos perguntar: de quem é essa culpa que faz do feito, ou algum aspecto dele, ser imperdoável – do que fez ou do que perdoou? A falha é do mau agente ou do mau recordador? A culpa de alguém é uma questão que concerne ao modo como as coisas simplesmente são? Ou é, pelo menos em parte, reflexo do fracasso do recordador em apresentar uma narrativa mais sensível às normas? (BRANDOM, 2019, p.716) 

Mas, mais uma vez, no caso do Holocausto, nós devemos “reconhecer pelo menos igual responsabilidade da parte do fracasso daquele que perdoa” (BRANDOM, 2019, p. 717)? E deveríamos também afirmar com Brandom que “é preciso confiar que essa falha recordativo-recognitiva – como a falha que envolve o agente original, perdoado de forma inadequada – também será perdoada com mais sucesso por futuros avaliadores (que saberão mais e serão melhores nisso)” (BRANDOM, 2019, p.718)? Além disso, o que dizer de casos como o de mutilação genital feminina, tortura, ou escravidão, que hoje experimentamos com horror, mas para os quais é fácil reconstruir o pensamento que torna essas coisas aceitáveis ​​não apenas para aqueles que as praticam, mas às vezes até para suas vítimas? E o que dizer dos casos em que a visão retroativa torna as ações mais inaceitáveis ​​do que eram em seu contexto original? Se julgarmos severamente esses casos, não apenas criamos novas normas e as impomos aos atos passados, e, em certo sentido, também descobrimos que tais atos foram sempre inaceitáveis, mesmo que parecessem aceitáveis ​​para aqueles que os praticaram. A escravidão é um óbvio exemplo onde isso se aplica. 

Vamos pegar mais uma vez o exemplo de Hitler e o Holocausto. A forma de se lidar com isso talvez esteja indicada na história bíblica do profeta Habacuque, a expressão mais pungente do que se poderia chamar de “o silêncio dos deuses” - da grande questão dirigida a Deus a partir de Jó: “Onde você estava quando aquele horror aconteceu? Por que você ficou em silêncio, por que não interveio?” Aqui estão as palavras da reclamação de Habacuque: 

Até quando, Senhor, implorarei sem que escuteis? Até quando vos clamarei: “Violência!” sem que venhais em socorro? Por que me mostrais a injustiça? Por que tolerais o malfazer? Só vejo diante de mim opressão e violência, nada mais que discórdias e contendas, porque a Lei se acha desacreditada, e a justiça nunca prevalece; porque o ímpio cerca aquele que é correto, e a justiça encontra-se falseada. (Habacuque, 1) 

Como Deus responde? Deve-se ler a resposta com muito cuidado: “Olhe para as nações e observe – e fique totalmente maravilhado. Pois vou fazer algo em seu tempo que você não acreditaria, mesmo que lhe dissessem.” Isso não é uma simples justificativa “teleológica” no estilo de “Seja paciente; estranhos são os caminhos do Senhor; seu sofrimento serve a um propósito no plano divino mais amplo que você não pode compreender do seu ponto de vista estreito e finito.” Na verdade, de uma perspectiva cristã, dizer que o Holocausto (ou sofrimento semelhante) serve a algum propósito superior desconhecido para nós, é uma obscenidade anticristã, uma vez que o ponto da compaixão de Cristo é a solidariedade incondicional com aqueles que sofrem. Em vez disso, para usar a expressão de Giorgio Agamben, deve-se reunir aqui uma total “coragem da desesperança”. Então, qual o significado de nós termos de ficar “totalmente maravilhados” e que acontecerá algo em que nós não iremos acreditar, mesmo que nos dissessem? O inacreditável é plausivelmente o retorno dos judeus à Terra Prometida, o que, poderíamos supor, não teria acontecido sem o Holocausto. Talvez, então, Hitler só pudesse ser retroativamente perdoado a partir da referência à existência de Israel, cuja criação só se deu pelos crimes que ele cometeu. Mas, mais uma vez, é preciso ser muito preciso aqui: isso de forma alguma justifica o Holocausto como “o sacrifício que o povo judeu precisava para pagar pelo retorno à sua terra” (a tese de alguns antissemitas); nem é a alegação de que o Holocausto era parte de um plano divino secreto para tornar possível o retorno dos judeus à sua terra natal (a tese de alguns outros antissemitas). Isso só significa que a fundação de Israel foi uma consequência inesperada do Holocausto e, além disso, não diz nada diz sobre outras injustiças que resultaram desse conjunto de atos. Por exemplo, a terra para a qual os judeus retornaram há muito tempo é habitada por outras pessoas e não pode ser simplesmente designada como “deles”. 

A principal armadilha a ser evitada aqui é a de uma teleologia holística. Essa é a ideia de que algo que nos surge como um horror pode, de uma perspectiva mais ampla, ser um elemento que contribui para a harmonia global, da mesma forma que uma mancha em uma grande pintura contribui para sua beleza se olharmos para a pintura de uma distância adequada. O legado de Jó, que não recebeu de Deus uma explicação para seu sofrimento, nos proíbe de nos refugiarmos no senso comum de um Deus transcendente como um Mestre secreto que conhece o significado daquilo que nos parece ser uma catástrofe sem sentido – o Deus que vê a imagem inteira, na qual o que percebemos como uma mancha contribui para a harmonia global. Quando confrontado com um evento como o Holocausto, ou a morte mais recente de milhões no Congo, não é obsceno afirmar que essas manchas contribuem para a harmonia do Todo? Pode haver um Todo que possa justificar e, assim, redimir um evento como o Holocausto? A morte de Cristo na cruz significa, em vez disso, que se deve abandonar sem restrições a noção de Deus como um zelador transcendente que garante o feliz resultado de nossos atos – a garantia da teleologia holística. A morte de Cristo na cruz é a morte desse Deus. Na verdade, o que se repete é a conclusão de Jó, recusando qualquer “significado mais profundo” que ofusque a realidade brutal das catástrofes. Mesmo uma versão mais forte dessa lógica – a ideia de que perdoar não significa o apagamento do conteúdo particular, mas o reconhecimento de que aquele conteúdo particular é necessário para a atualização do bem universal – não é forte o suficiente. 

ANALISANDO O PASSADO 

O perdão recordativo continua sendo uma noção ambígua. Na esfera ética, pode ser lido como “tentativa de entender o que nos aparece como o mal” – isto é, reconstruir uma motivação positiva oculta que foi expressada de forma pervertida. No entanto, a retroatividade implica uma dimensão muito mais radical de contingência: que as coisas não são o que são, são o que “terão sido”. Sua verdade é decidida depois de acontecer: 

O perdão concreto e prático envolve fazer coisas para mudar quais serão as consequências do ato. Por exemplo, pode-se confiar que seus sucessores farão com que a revelação inadvertida, o sacrifício de alguém ou a decisão de ir para a guerra valham a pena, por causa daquilo a que acabaram levando – por causa do que fizemos disso fazendo, depois, as coisas de forma diferente. Algo que fiz não deve ser tratado como um erro ou um crime, como faz o juiz de coração duro, porque o que fiz ainda não está decidido. As ações subsequentes dos outros podem afetar as consequências e, portanto, o conteúdo do que fiz. O julgamento de coração duro pressupõe de forma errônea que a ação é uma coisa acabada, situada no tempo completamente formada, como um possível objeto de avaliação independente do que é feito mais tarde … o papel de um determinado evento no plano em evolução depende do que mais acontece. (The Spirit of Trust, p.602) 

No nível dos fatos imediatos, as coisas são o que são. No Holocausto, milhões morreram. Nada pode mudar isso retroativamente. O passado só pode ser mudado no nível de sua mediação simbólica – o que significa para as pessoas que pensam sobre ele. Mas aqui as coisas ficam complicadas. O que falar do caso evocado pelo próprio Hegel, em que um agente atua com as melhores intenções, mas as consequências imprevisíveis são catastróficas? Como o perdão recordativo funciona aqui? O juiz pode forjar um perdão parcial provando que a consequência mais provável teria sido benevolente, e que a catástrofe se deu devido aos acidentes imprevisíveis? E se introduzirmos um terceiro nível no topo da dualidade de minha intenção subjetiva ao realizar um ato e o resultado real de meu ato – as motivações inconscientes? Este terceiro nível não deve, de forma alguma, ser limitado a considerar motivos de base como a verdade oculta dos motivos nobres professados publicamente – por exemplo, quando uma pessoa que afirma realizar um ato por senso de dever enquanto que, na verdade, a motivação fora a vingança – ela também deveria incluir o caso oposto – por exemplo, embora eu achasse que agia por alguma inclinação patológica particular, um senso mais profundo de justiça realmente me motivou. 

Se admitirmos que o significado real de um ato é o que “terá sido”, tocamos aqui um nervo paradoxal da moralidade, que foi batizado por Bernard Williams de “sorte moral” (WILLIAMS, 1981). Williams evoca o caso do pintor Gauguin, que deixou esposa e filhos e mudou-se para o Taiti para desenvolver seu gênio artístico. Ele tinha justificativa moral para fazer isso, ou não? A resposta de Williams é que só podemos responder a essa pergunta retrospectivamente, depois de sabermos o resultado de sua decisão arriscada: ele se tornou um artista genial, ou não? 

O mesmo vale para Immanuel Kant e o status legal da rebelião: a proposição, “o que os rebeldes estão fazendo é um crime que merece ser punido” é verdadeira se pronunciada enquanto a rebelião ainda acontece; mas uma vez que a rebelião vence e estabelece uma nova ordem legal, esta afirmação sobre o estatuto jurídico do mesmo ato, que agora pertence ao passado, já não vale mais. 

Aqui está a resposta de Kant à pergunta: “A rebelião é um meio legítimo para um povo se livrar do jugo de um suposto tirano?”: 

Nenhuma injustiça recai sobre o tirano quando ele é deposto. Disso, não há dúvida. Contudo, é ilegítimo no mais alto grau que os súditos busquem seu direito dessa forma. Se eles forem subjugados nesse conflito e tiverem depois disso de sofrer a mais dura pena, não poderão reclamar mais de injustiça que o tirano poderia se tivessem sido bem-sucedidos. (KANT, 1795, p.4). 

Kant não oferece aqui sua própria versão de “sorte moral”, ou, melhor, “sorte legal”? O status legal de uma rebelião é decidido retroativamente: se uma rebelião tem sucesso e estabelece uma nova ordem jurídica, então ela cria seu próprio círculo vicioso: apaga no vazio suas próprias origens ilegais ao decretar o paradoxo de fundar-se retroativamente. Kant afirma esse paradoxo ainda mais claramente algumas páginas antes, onde escreve: “Se uma revolução violenta, produzida por uma constituição ruim, introduzisse por meios ilegítimos uma constituição mais conforme à lei, levar o povo de volta à constituição anterior não seria permitido; mas, enquanto durou a revolução, cada pessoa que a apoiou abertamente ou secretamente teria incorrido com justiça na punição devida àqueles que se rebelaram.” Não poderia ser mais claro: o estatuto jurídico de um mesmo ato muda com o tempo, e o que é, enquanto prossegue a rebelião, crime punível, torna-se, depois de instituída uma nova ordem jurídica, o seu oposto. Mais precisamente, o crime simplesmente desaparece, como um mediador evanescente que em seu resultado se apaga retroativamente. 

Tais interpretações retroativas acontecem consistentemente na esfera da ordem simbólica. Quando digo ou faço algo, minhas palavras ou atos nunca expressam apenas minha intenção interior. Em vez disso, seu significado é decidido retroativamente, por meio de sua incorporação no grande Outro. A história de Italo Calvino, “Una Bella Giornata di Marzo” (1993) se concentra nas consequências não intencionais do ato de matar Júlio César. Embora os conspiradores quisessem matar um tirano e, assim, restaurar Roma à sua glória republicana, seu ato abole as próprias condições que sustentavam o significado do que pretendiam. Como Molly Rothenberg escreve: 

 O próprio mundo em que fazia sentido se livrar de César também desaparece com aqueles golpes de adaga – não porque César mantinha esse mundo unido, mas porque os assassinos não podiam prever que seu ato também transformaria a maneira como o ato seria julgado. Eles não podiam levar em consideração a historicidade de sua ação: nem eles nem ninguém poderia prever ou decidir como o futuro interpretaria o assassinato. Dito de outra forma, poderíamos dizer que simplesmente não havia como eles levarem em consideração o “efeito retroverso” de interpretações futuras (ROTHENBERG, 2010, p.7). 

Tomemos um caso extremo de “recordação que perdoa” (sem muito perdão – e com uma maior atribuição retroativa de responsabilidade e culpa). Alguém faz a observação perspicaz de que a maior parte do sexo, até por volta do início ou mesmo meados do século XX, seria considerada estupro pelos padrões de hoje – e diz que este é um sinal definitivo de algum tipo de progresso … 

O que encontramos aqui é o ponto-chave do Simbólico: ele expõe a “abertura” fundamental que o Simbólico introduz na realidade. Em outras palavras, uma vez que entramos no Simbólico, as coisas nunca simplesmente são, todas elas “terão sido”: elas, por assim dizer, emprestam parte de seu ser do futuro. Essa descentralização introduz uma contingência irredutível. Não há nenhuma teleologia mais profunda em ação aqui, nenhum poder secreto que garanta um resultado feliz. 

Devido ao seu conhecimento de Hegel, Brandom tem que admitir este aspecto retrospectivo da natureza do progresso histórico: “A progressão é retrospectivamente necessária. Não é o caso de que um determinado estágio não pudesse ter evoluído de outra maneira senão para produzir o que aparece como seu sucessor. Em vez disso, esse sucessor (e, em última análise, a concepção final – até agora – triunfante e culminante) não poderia ter surgido, exceto como um desenvolvimento das anteriores. A necessidade é sempre retrospectiva em Hegel: a Coruja de Minerva apenas alça seu voo ao cair do crepúsculo” (BRANDOM, 2019, p.608). Até aqui, tudo bem. Mas Brandom continua: “A passagem termina com a manifestação de confiança de Hegel: ele convoca a próxima geração a fazer por seu tempo o que ele fez pelo seu: assumir o encargo, que perdoa à medida que recorda, de formular uma explicação que produza uma história racional.” 

Acho este salto para o futuro, esta fé no progresso, algo totalmente injustificado e em desacordo com a postura metafísica básica de Hegel. Por quê? Porque implica uma lacuna entre dois níveis: entre o pensamento real de Hegel (restrito ao conhecimento de seu tempo; pintar cinza sobre cinza), e uma visão que localiza o pensamento de Hegel em uma série progressiva – que Brandom denomina um “ciclo cognitivo de confissão, confiança e perdão recordativo, seguido da confissão da inadequação desse perdão e confiança no perdão subsequente dessa falha” (BRANDOM, 2019, p.610). E o que Hegel fez por todo o passado até seu tempo (“recordando-o” em uma totalidade racional), o próprio Brandom tenta fazer com Hegel (parafraseando seu pensamento em termos contemporâneos, etc.); e ele convida seus futuros leitores a fazerem o mesmo com seu trabalho. Estamos de volta ao que Hegel chamou de “infinidade espúria”. 

Há ainda outra inconsistência. Se a necessidade histórica é sempre retrospectiva, o que legitima Brandom a ler a ideia de Hegel de Saber Absoluto como indo muito além de “pintar cinza sobre cinza” e apontando para um futuro social emancipado além dos antagonismos da modernidade alienada – para o que Brandom chama de “Terceira Fase”? Ele diz: “A surpreendente aspiração de Hegel é… guiar-nos para uma nova era do Geist, cuja estrutura normativa é tanto uma melhoria sobre o moderno quanto o moderno foi sobre o tradicional” (BRANDOM, 2019, p.614). Mas não seria um movimento hegeliano adequado, ao invés disso, precisamente deixar o espaço aberto para uma compreensão retroativa de que este futuro (mais) brilhante, esta Terceira Fase, traz novos antagonismos e formas de violência imprevisíveis? Além disso, e se devêssemos ser perdoados exatamente por isso – pela esperança ilusória de que podemos fazer mais do que apenas “pintar cinza sobre cinza” e, em vez disso, delinear os contornos básicos de uma nova época futura de plena emancipação, onde o progresso continuará? Não estaria muito mais no espírito de Hegel pressupor que essa fase também irá de alguma forma dar terrivelmente errado, como aconteceu com o fascismo, o stalinismo e assim por diante? Por exemplo, não é suficiente jogar o jogo usual de como a nobre visão de Marx foi mal utilizada e de como ele não deve ser responsabilizado por esse uso indevido. Em vez disso, aquilo que precisa ser “perdoado” em Marx é que ele permaneceu cego para como sua visão do comunismo poderia inspirar novas formas de opressão e terror. 

CONCLUSÃO 

Então, para concluir: não deveríamos virar de cabeça para baixo a ideia principal de Brandom do “espírito da confiança”? A característica mais profunda de uma verdadeira abordagem hegeliana não é um espírito da desconfiança? Ou seja, o axioma básico de Hegel não parte da premissa teleológica holística de que, não importando o quão terrível seja um evento, no final ele acabará por contribuir para a harmonia geral do mundo e da história. Em vez disso, seu axioma é que não importa o quão bem planejado e bem intencionado seja uma ideia ou projeto, ele de alguma forma dará errado: a comunidade orgânica grega da polis se transforma em guerra fraterna; a fidelidade medieval baseada na honra se transforma em bajulação vazia; a luta revolucionária pela liberdade universal se transforma em terror. O que Hegel quer dizer não é que essa virada ruim poderia ter sido evitada – digamos, se apenas os revolucionários franceses tivessem se limitado a realizar a liberdade concreta para vários estados em vez de tentar realizar a liberdade abstrata e a igualdade para todos, o derramamento de sangue poderia ter sido evitado. Em vez disso, temos que aceitar que não há um caminho direto para a liberdade concreta; que nossa “reconciliação” reside, em vez disso, no fato de que nos resignamos à ameaça permanente de destruição, que é uma condição de nossa liberdade. 

A visão de Hegel sobre o Estado é a de uma ordem hierárquica de Estados mantidos juntas pela ameaça permanente de guerra. E se então considerarmos um progresso que vai além disso – em direção a uma democracia liberal pós-hegeliana? É fácil imaginar a alegria com a qual Hegel teria analisado como uma sociedade liberal leva ao fascismo, ou como um projeto emancipatório radical termina no stalinismo. Também teria sido fácil para Hegel apontar como a carnificina inédita da Grande Guerra emergiu como a verdade do progresso pacífico e gradual do século XIX. ESTA, de fato, é nossa tarefa como hegelianos hoje.  

Este artigo foi publicado pela primeira vez na edição 140 da Philosophy Now (disponível agora).

This article was first published in Philosophy Now issue 140 (out now)



Esta Tradução compõe o V. 5 n. 9 de 2020 da revista Eleuthería. Link para acesso da revista https://periodicos.ufms.br/index.php/reveleu/issue/view/587  

Tradução: Marcus Vinicius Quessada Apolinário Filho
Revisão: Pedro Naccarato e Gérson Pereira Filho
Arte: Felipe Aiello
Original

Mao Tsé-Tung: Uma abordagem dialética para a unidade interior do partido

Arte de Felipe Aiello.


Por Mao Tsé-Tung

Excerto do discurso no Encontro de Representantes dos Partidos Comunistas e Operários em Moscou, realizado em 18 de novembro de 1957.


Com relação à questão da unidade, gostaria de dizer algo sobre a abordagem. Acho que nossa atitude deve ser de unidade para com cada camarada, não importa quem, desde que ele não seja um elemento hostil ou um sabotador. Devemos adotar uma abordagem dialética, não metafísica, em relação a ele. O que significa abordagem dialética? Significa ser analítico sobre tudo, reconhecer que todos os seres humanos cometem erros e não negar uma pessoa completamente só porque ela cometeu erros. Lênin disse uma vez que não existe uma única pessoa no mundo que não cometa erros. Todos precisam de apoio. Um sujeito capaz precisa da ajuda de três outras pessoas, uma cerca precisa do apoio de três estacas. Com toda sua beleza, o lótus precisa do verde de suas folhas para destacá-lo. Estes são provérbios chineses. Ainda outro provérbio chinês diz que três sapateiros com sua inteligência combinada equivalem a Chukeh Liang[1], o mentor. Chukeh Liang, por si mesmo, nunca poderia ser perfeito, ele tinha suas limitações. Veja esta declaração de nossos doze países. Passou por um primeiro, segundo, terceiro e quarto rascunhos e ainda não terminamos de polir. Acho que seria presunçoso alguém reivindicar onisciência e onipotência divinas. Então, que atitude devemos adotar em relação a um camarada que cometeu erros? Devemos ser analíticos e adotar uma abordagem dialética, em vez de metafísica. O nosso Partido uma vez se afogou na metafísica, no dogmatismo, que destruiu totalmente qualquer um que não lhe aprouvesse. Mais tarde, repudiamos o dogmatismo e passamos a aprender um pouco mais de dialética. A unidade dos opostos é o conceito fundamental da dialética. De acordo com este conceito, o que devemos fazer com um camarada que cometeu erros? Devemos primeiro travar uma luta para livrá-lo de suas ideias erradas. Em segundo lugar, também devemos ajudá-lo. Ponto um, luta, e ponto dois, ajuda. Devemos proceder com boas intenções para ajudá-lo a corrigir seus erros para que ele tenha uma saída.

No entanto, lidar com pessoas de outro tipo é diferente. Em relação a pessoas como Trotsky e como Chen Tu-Hsiu, Chang Kuo-Tao e Kao Kang na China, era impossível adotar uma atitude prestativa, pois eram incorrigíveis. E havia indivíduos como Hitler, Chiang Kai-Shek e o czar, que também eram incorrigíveis e tiveram de ser derrubados porque nós e eles éramos absolutamente exclusivos um do outro. Nesse sentido, há apenas um aspecto de sua natureza, não dois. Em última análise, isso também é verdade para os sistemas imperialista e capitalista, que estão fadados a ser substituídos no final pelo sistema socialista. O mesmo se aplica à ideologia, o idealismo será substituído pelo materialismo e o teísmo pelo ateísmo. Estamos falando aqui do objetivo estratégico. Mas o caso é diferente com estágios táticos, onde compromissos podem ser feitos. Não nos comprometemos com os americanos no Paralelo 38 na Coréia? Não houve um acordo com os franceses no Vietnã?

Em cada estágio tático, é necessário ser bom em fazer compromissos, bem como em travar lutas. Agora voltemos às relações entre camaradas. Eu sugeriria que conversas fossem realizadas por camaradas onde houve algum mal-entendido entre eles. Alguns parecem pensar que, uma vez no Partido Comunista, todos se tornam santos sem diferenças ou mal-entendidos, e que o Partido não é objeto de análise, ou seja, é monolítico e uniforme, portanto não há necessidade de conversas. Parece que as pessoas precisam ser 100% marxistas uma vez que estão no Partido. Na verdade, existem marxistas de todos os graus, aqueles que são 100 por cento, 90, 80, 70, 60 ou 50 por cento marxistas, e alguns que são apenas 10 ou 20 por cento marxistas. Não podemos ter dois ou mais de nós conversando em uma pequena sala? Não podemos partir do desejo de unidade e conversar com o espírito de ajudar uns aos outros? É claro que estou me referindo a conversas dentro das fileiras comunistas, e não a conversas com os imperialistas (embora tenhamos conversas com eles também). Deixe-me dar um exemplo. Nossos doze países não estão conversando nesta ocasião? As mais de sessenta Partes não estão conversando também? Na verdade, eles estão. Em outras palavras, desde que nenhum dano seja causado aos princípios do marxismo-leninismo, aceitamos dos outros certas opiniões que são aceitáveis e desistimos que algumas de nossas próprias opiniões que podem ser abandonadas. Portanto, temos duas mãos para lidar com um camarada que cometeu erros, uma mão para lutar com ele e a outra para nos unir a ele. O objetivo da luta é defender os princípios do marxismo, o que significa ter princípios; essa é uma mão. A outra mão é unir-se a ele. O objetivo da unidade é fornecer-lhe uma saída, fazer um compromisso com ele, o que significa ser flexível. A integração de princípio com flexibilidade é um princípio marxista-leninista e é uma unidade de opostos.

Qualquer tipo de mundo e, claro, a sociedade de classes em particular, está repleta de contradições. Alguns dizem que há contradições a serem “encontradas” na sociedade socialista, mas acho que essa é uma maneira errada de colocar as coisas. A questão não é que haja contradições a serem encontradas, mas que haja uma plêiade de contradições. Não há lugar onde não existam contradições, nem quem não possa ser analisado. Pensar que ele não pode [ser analisado], é ser metafísico. Veja, um átomo é um complexo de unidades de opostos. Existe uma unidade dos dois opostos, o núcleo e os elétrons. Em um núcleo, há novamente uma unidade de opostos, os prótons e os nêutrons. Falando em próton, existem prótons e antiprótons, e quanto ao nêutron, existem nêutrons e anti-nêutrons. Em suma, a unidade dos opostos está presente em todos os lugares. O conceito de unidade de opostos, dialética, deve ser amplamente propagado. Eu digo que a dialética deve passar do pequeno círculo de filósofos para as amplas massas do povo. Sugiro que esta questão seja discutida nas reuniões políticas e nas sessões plenárias das comissões centrais dos vários partidos e também nas reuniões das suas comissões partidárias em todos os níveis. Na verdade, os secretários dos ramos do nosso Partido entendem de dialética, pois, quando elaboram relatórios para as reuniões dos ramos, costumam escrever dois itens em seus cadernos, por primeiro as conquistas e, por segundo, as lacunas. Um se divide em dois – este é um fenômeno universal, e isso é dialética.


[1] Chukeh Liang foi um político, estrategista militar, engenheiro e inventor chinês que viveu no período dos Três Reinos (220 a.C-280 a.C).



Tradução: Moisés João Rech
Revisão: Sofia Russi
Arte: Felipe Aiello
Original

The R-Files 1.0: Sobre o Eclipse da Razão e Princípios da Filosofia do Direito

Arte de Jayu U.


Texto por Agon Hamza e Frank Ruda


“The R-Files” (abreviação para “Os Arquivos da Revisão”) é uma nova publicação mensal do The Philosophical Salon. Neste artigo, os filósofos Frank Ruda e Agon Hamza dão uma olhada no que está acontecendo no mundo sob a perspectiva de um texto filosófico específico que os é relevante, os preocupa, os irrita ou fá-los despertar entusiasmo – e, com sorte, fara o mesmo com nossos leitores.

Parte I. Sobre o Eclipse da Razão (Frank Ruda)

Recentemente, reli um livro que não abria a anos. Após acompanhar – quase que incessantemente – as notícias mundiais nos últimos meses, meu olhar se desviou por um instante e pousou sob sua capa. Ele imediatamente me pareceu atual e oportuno. O livro era Eclipse da Razão, de Max Horkheimer.

A obra é raramente mencionada na maioria das discussões filosóficas ou críticas de hoje, mas seu título já fala de um sentimento que é amplamente compartilhado no dia a dia. Atualmente, não estamos testemunhando um preocupante obscurecimento da razão por todos os tipos de outros motivos que nem mais permanecem obscuros ou ocultos? A defesa da razão parece ter perdido a maior parte do seu poder e muitas vezes parece estar desamparada, pelo menos nas esferas onde ainda é feita: na política, ecologia, economia e, ultimamente, até em questões de saúde pública. Claro, isso não significa simplesmente que estamos vivendo num tempo de irracionalidade, apesar de ser um refrão que se ouve aqui e ali. Em vez disso, algo aconteceu com a efetividade prática da racionalidade, com seu próprio modo de funcionamento. Ela parece ter sido obscurecida e, portanto, ver o relato de Horkheimer a respeito do último eclipse da razão pode ser nos instrutivo.

O livro é composto por uma série de palestras dadas por Horkheimer em 1947 na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde estava exilado. Para a edição alemã, Horkheimer adicionou outros  textos (que envolviam problemas filosóficos e sociológicos, lidando, por exemplo, com Kant, Aristóteles e Schopenhauer, bem como o casamento, autoridade e a família) e republicou como Sobre a Crítica da Prática. Ambos os títulos sugerem que a razão fica eclipsada quando se torna instrumental(izada). O que isso significa, se não uma suspensão da razão através de uma forma específica de seu (sobre-)uso? Deixe-me elucidar.

A experiência do fascismo alemão e da Segunda Guerra Mundial está no pano de fundo da reflexão de Horkheimer sobre o que ele chama de “a presente crise da razão”[i], uma crise decorrente do fato de que “o pensamento serve a qualquer propósito particular”[ii]. Quando o uso da razão não leva mais a uma tentativa de realização da razão, isto se dá porque a razão não nos leva mais a raciocinar e a pensar ou agir de forma razoável – isto é, quando a usamos como se fosse uma ferramenta neutra e como se não nos afetasse em seu uso. Quando a razão é usada como um martelo que pode bater na cabeça do prego ou simplesmente bater em uma cabeça, algo acontece com a prática e o status da racionalidade. Quando a razão começa a servir a qualquer propósito e fim, a razão “se líquida como uma agência de insight ético, moral e religioso”[iii].

A “redução da razão a um mero instrumento”[iv] é o resultado da tendência interna do liberalismo. O liberalismo liberou a razão de todos os seus propósitos prefigurados, até da razão em si. Isso significa que a razão é libertada de qualquer propósito mais profundo e que, a razão pode se tornar serva de qualquer um e, como Horkheimer coloca, esse é o porquê “uma atividade só é razoável se servir outro propósito”[v]. Em todo lugar a razão é usada para fins os quais dificilmente poderiam ser usados como justificativa e, dessa forma, não são. A razão é usada em todo lugar, mas raramente alguma coisa é razoável. Tal é o eclipse da razão através de sua sobrecarga.

O dilema, que resumi brevemente com a ajuda de Horkheimer, produz confusões. Por exemplo, “trabalho produtivo, manual ou intelectual, se ternou respeitável”, mas “a busca de qualquer fim que eventualmente produza uma renda é chamada produtiva”[vi]. Se o eclipse da razão se manifesta apenas no uso da razão para propósito extraracionais, um novo padrão de quão produtivo é este ou aquele uso da razão emerge. Esse padrão, então, não pode mais ser questionado pela razão. Para Horkheimer, usar a razão pode, assim, se tornar totalmente compatível com a sua “transformação em estupidez”[vii]. Ele chega ao ponto de afirmar que isso levaria necessariamente a uma “estupidez subjetiva”, uma estupidez que surpreendentemente é parte constitutiva do modo como usamos a razão.

O eclipse da racionalidade em e por meio de seu sobre-uso instrumental leva os sujeitos a reviver “teorias passadas da razão objetiva”[viii]. Quando a razão se torna um instrumento que consegue unir bem uma diminuição da razão e do pensamento, são realizadas, num nível individual, tentativas desesperadas de compensar tal eclipse da razão por meio de retornos a “Curas mentais pseudocientíficas ou semicientíficas, espiritualismo, astrologia …, Yoga, Budismo ou misticismo”[ix] e afins. Na era do eclipse da razão, sempre há um motivo pelo qual as pessoas optam por algo diferente da razão.

Estamos sendo capazes de testemunhar uma disseminação de técnicas compensatórias e de sistemas de crenças em todos os cantos do cotidiano da vida ocidental produtiva. Por mais honestas, apesar de instrumentais[x] – ou talvez: instrumental precisamente quando honestas -, essas crenças parecem ser nada mais que o reverso contemporâneo de outra transformação que Horkheimer notou vis-à-vis ao funcionamento da hipocrisia: “A hipocrisia se tornou cínica; nem mais espera que acreditem nela”[xi]. De um lado, temos as técnicas honestas de meditação que definitivamente irão te fazer mais produtivo (e são, como tais, instrumentais); d’outro lado, temos sistemas políticos que aparentemente não estão agindo de acordo com suas autodescrições mais honradas, e é difícil de manter a crença de que eles esperam que alguém ainda acredite neles.

Como Alain Badiou apontou recentemente, capitalismo “é a primeira organização social na qual é possível dizer que essa organização péssima”[xii] e tal afirmação não produz nenhuma consequência prática imediata. O eclipse da razão se manifesta ressuscitando as práticas supramencionadas que, em última análise, endossam ou instilam uma crença descreditada, isto é, tais práticas são instrumentos eficazes para aumentar o próprio trabalho produtivo. Mas o eclipse da razão também se manifesta no “cinismo bem informado”[xiii], que corresponde a novas formas de poder e dominação que já não disfarçam mais suas próprias agendas e sequer tentam mentir honestamente.

É aqui que o diagnóstico de Horkheimer mostra sua real importância contemporânea. Ele reflete sobre certos tipos de demagogos modernos. Eles são frequentemente descritos como atores amadores… [eles] agem como meninos malcriados, que normalmente são repreendidos… por… uma… agência civilizadora. Seus efeitos sobre o público parecem vir do fato de que, ao representar seus impulsos reprimidos, eles parecem estar voando na cara da civilização e patrocinando a revolta da natureza. Mas seu protesto não é de forma alguma genuíno ou ingênuo. Eles nunca esquecem o propósito de sua palhaçada. Seu objetivo constante é instigar a natureza a juntar-se às forças de repressão pelas quais ela mesma será esmagada.[xiv]

Os demagogos modernos agem como se fossem meninos malcriados que se rebelam contra as forças disciplinadoras do mundo político e econômico moderno, contra o sistema e afins. E nisso eles são como nós, como todos. Eles fingem causar estragos para a classe dominante existente que constantemente tenta, mas sempre falha, em civilizá-los. Simplesmente porque, como políticos, são tão maus atores que ninguém parece ser capaz de levá-los a sério (como políticos) de qualquer forma.

Para Horkheimer, isso é parte constitutiva de seu apelo: eles podem agir tão mal quanto nós ou a maioria de nós; eles são grosseiros e malcomportados como nós somos as vezes; eles entendem sobre técnicas políticas tanto quanto a maioria de nós. Mas, mesmo assim, eles governam. É por isso que, para nos governar, eles não nos enganam: eles não são gênios disfarçados de idiotas; são apenas idiotas. Eles, assim, governam tendo sucesso em causas tão óbvias e transparentes que, frente a elas, ninguém pode se dizer cego.

Os demagogos transparentes [see-trough], cujos motivos parecem autoevidentes e cujo apelo reside em parecerem incapazes de disfarça-los adequadamente, usam transparência como seu disfarce definitivo. Eles possuem uma queda por aqueles que irão esmagar sob seu governo. São como o imperador nu que admite que está nu[xv] – e que, por conseguinte, se torna tanto um ímã de atenção que nos impede de olhar para o que realmente importa, ou seja, para a verdadeira crise da qual eles estão desviando nossa atenção.

Às vezes, o eclipse da razão vem com o que parece ser um eclipse do poder e da soberania, pois se torna quase vulgarmente transparente e transparentemente vulgar. Mas podemos aprender com Horkheimer que isso pode muito facilmente significar que o poder e a soberania estão apenas sendo usados para outros propósitos. É nisso que devemos nos focar, não na suposta indisciplina de demagogos populistas. Então, qual é a verdadeira crise da qual eles estão nos afastando?

Parte II: Sobre os Princípios da Filosofia do Direito (Agon Hamza)

Recentemente, reli o Princípios da Filosofia do Direito de Hegel. A obra fora criticada como um dos tratados responsáveis por desenvolver, encorajar e propagar o pior na altamente reacionária Prússia. Em verdade, tudo já foi dito a respeito dessa obra; já fora objeto de todo tipo de exames e interrogações filosóficas e políticas. Tudo já foi dito e escrito sobre Hegel. Toda orientação filosófica e política parece ter reivindicações sobre ele e concebê-lo como um predecessor.

O que se segue não se trata de uma mera defensa de Hegel – afinal de contas, o trabalho de Hegel já não é o melhor defensor de si mesmo? – mas ele deve ser lido, numa referência a Freud, como na forma de “associações livres” no que se refere a alguns dos tópicos do livro.

De antemão, há um obstáculo que não posso deixar de mencionar. Como se pode ser hegeliano (não só) hoje, que é suposto ser, em si, uma posição impossível de seguir o filósofo do fim (da história, da arte, da religião… até do fim da filosofia)? Slavoj Žižek foi quem elaborou essa dificuldade inicial, numa ruptura pós-hegeliana com a metafísica tradicional, com a questão de como ser possível alguém declarar fidelidade a Hegel após Marx, Schopenhauer, Kierkegaard e outros. Outra dificuldade ligada a isso é que, enquanto a caricatura de Hegel como idealista absoluto que possui o Conhecimento Absoluto persiste, marxistas, nietzschianos e aristotélicos continuam a existir (sim, especialmente eles) …

Declarar-se hegeliano hoje simplesmente não é suficiente, especialmente hoje com o renascimento do interesse pela obra de Hegel (embora, lendo diferentes livros sobre Hegel em diferentes períodos de tempo, não se pode deixar de notar como tantos deles nada mais são do que uma “intervenção” no período de – ainda outro – renascimento do interesse por Hegel …) na moda, a qual Žižek chamou de “o Hegel murcho”. Então, ser hegeliano hoje nos coloca a seguinte questão: qual Hegel? A forma de abordar um verdadeiro filósofo é localizar um determinado conceito e ler a integridade de seu sistema partindo deste conceito.

O prefácio da Filosofia do Direito é famoso(/infame) por sua imagem de filósofo que defende o presente. A esse respeito, há pelo menos dois momentos-chave que devem ser reconsiderados, começando pela densa frase seguinte: 

reconhecer a razão como rosa na cruz do presente e, assim, deleitar-se no presente – esta visão racional é a reconciliação com a realidade que a filosofia concede àqueles que receberam o chamado interior para compreender, para preservar sua liberdade subjetiva no reino do substancial e, ao mesmo tempo, estar com sua liberdade subjetiva não em uma situação particular e contingente, mas no que tem ser em-si e para-si.[xvi]

A “rosa na cruz do presente” é uma referência de Hegel a Lutero, através de quem ele não só critica a posição de uma alma bela como uma instância de inatividade, mas também, reconhece o presente apenas como a esfera onde a liberdade pode ser realizada. Está é a dimensão cristã, ou, mais precisamente, protestante do pensamento Hegel. Para Hegel, como ele mesmo coloca, filosofia moderna é Lutero em forma de pensamento[xvii]. Tal como ele escreve no mesmo prefácio, “o que Lutero inaugurou como fé no sentimento e no testemunho do espírito é a mesma coisa que o espírito, num estágio mais maduro de seu desenvolvimento, se esforçou para conceber na forma de conceito para assim no presente se libertar e aí reencontrar-se”[xviii]. Lutero e o protestantismo, com a noção de predestinação, abre a única forma possível de liberdade. Liberdade protestante só é possível da perspectiva da predeterminação: sei que sou predeterminado, mas não sei que sou predestinado e, por conta disso, não faço boas ações para ganhar a salvação, mas porque este é o meu dever. Lutero se recusa a barganhar com a ética. Como ele disse noutro lugar, “a liberdade existe apenas onde não há outro para mim que não seja eu mesmo”[xix].

Para Hegel, “filosofia é uma exploração do racional; e é, por esta mesma razão, a compreensão do presente e do atual”. A partir disso, Hegel formula sua infame fórmula: “O que é racional é real; e o que é real é racional”. Esta frase já escandalosa se torna ainda mais monstruosa em sua tradução para o inglês[xx]. A palavra alemã para “atual” é wirklich, cuja “conotação específica deriva de sua raiz no verbo ‘agir’ (wirken), o que deixa claro que ‘atualidade’ (Wirklichkeit) não é um dado meramente passivo e natural”[xxi].

Aqui, deve-se notar outro ponto importante: Hegel começa seu argumento dizendo que o que é racional é real, não o contrário, como é predominantemente entendido. A diferença não é semântica. Ele apresenta a atualidade do racional, o que significa que o que é racional tem, em-si, o poder de se atualizar. Tem o potencial de passar da potencialidade à atualidade. Hegel não advoga pelo primado da racionalidade na atualidade, o que também pode significar que o Wirklichkeit determina, na verdade, a racionalidade, ou seja, nós não temos, como em Kant, uma forma de racionalidade pré-dada (digo, com suas leis e conceitos). A atualidade é aquilo em que a essência e a existência concorrem, ou como ele coloca na Ciência da Lógica: “Atualidade é a unidade da essência e existência concreta; nisso, essência ­sem-corpo e aparência instável – ou subsistência sem determinação e multiplicidade sem permanência – possuem sua verdade”[xxii]. Por essa razão, a atualidade é racional. O processo dialético de Hegel não é um processo fechado; ele não termina numa reconciliação de todos os antagonismos. Na contramão disso, a reconciliação propriamente hegeliana “não é um estado pacífico em que todas as tensões são suprassumidas ou mediadas, mas uma reconciliação com excesso irredutível da negatividade em si”[xxiii].

Mas como abordar o conceito hegeliano de Estado? “O Estado consiste na marcha de Deus sobre o mundo, e sua base é o poder da razão realizado em-si como vontade”[xxiv]. Isso não ecoa os pensamentos de Hegel expressos numa carta para seu amigo Niethammer?

Eu aderi à visão de que o espírito do mundo deu ordens de marcha à era. Essas ordens estão sendo obedecidas. O espírito do mundo, este essente, procede irresistivelmente como uma falange blindada cautelosamente desenhada avançando com movimentos imperceptíveis, tanto quanto o sol através do grosso e do fino. Inumeráveis tropas leves o flanqueiam por todos os lados, jogando-as num equilíbrio a favor ou contra seu progresso, embora a maioria deles desconheça totalmente o que está em jogo e apenas recebam golpes de cabeça como de uma mão invisível.[xxv]

Seus oponentes, tanto de esquerda quanto de direita, não poderiam ter ficado mais felizes em “provar” seu ponto de vista por meio dessa articulação e concepção do Estado. E isso piora. “O Estado é”, Hegel argumenta, “a atualidade da Ideia ética – o espírito ético como vontade substancial” (PR 275, §257). Nada pode alienar, ou talvez agravar, os marxistas do que essa posição, já que o objetivo final deles é se livrar do Estado. O último propósito do Estado é definhar, como sustentou Marx. Talvez devêssemos retornar à décima primeira tese de Marx sobre Feuerbach para dar sentido à posição da esquerda em se distanciar e odiar o Estado e seu poder. É interessante notar o paradoxo, embora Marx visasse reformular e redefinir o materialismo depois de Hegel (e Feuerbach), a tese onze é talvez a posição mais não-materialista de Marx.

Hegel define o Estado como um espírito objetivo (em suas aulas em Jena, a saber). A definição mais elementar de espírito objetivo que pode ser formulada como o campo no qual a consciência se impõe. Ou, como Hegel escreveu em Princípios da Filosofia do Direito, “a vida ética é a unidade da vontade em seu conceito com a vontade do indivíduo [des Einzelnen], isto é, do sujeito” (adição ao §33). Colocado de forma diversa, o espírito objetivo é o espírito objetificado na natureza ou nas instituições humanas. Entretanto, é importante não entender o espírito objetivo como uma forma de vida, ou seja, uma formação histórica concreta ou mundo, como “espírito objetivado”. Enquanto não é o grande Outro lacaniano, o espírito objetivo existe independentemente da vontade dos indivíduos porque ele os precede [pre-exists]; é algo que eles encontram em sua atividade e, como tal, não possui “autoria”. Hegel não pensa o sujeito coletivo, mas o espírito objetivo não pode existir fora, além ou acima de uma coletividade humana. Aqui reside o paradoxo do espírito objetivo.

Aqui, nos deparamos com dois aspectos, ou melhor, elementos constitutivos do sistema de Hegel, a saber, o Cristianismo e o Estado, dos quais a apropriação esquerdista de Hegel, a começar pelos Jovens Hegelianos, tenta se dissociar. Subtraindo-os de seu sistema filosófico, como Marx tentou fazer, necessariamente acaba-se criando uma nova figura da substância. Para aqueles que amam a liberdade, o estado e o cristianismo são, de fato, a personificação de sua negação. Mas é assim mesmo?

Estou convencido de que, para que o marxismo permaneça pertinente e não se transforme em um barril vazio, é preciso integrar esses dois elementos em seu sistema. Embora as inclinações ideológicas de Hegel não fossem exatamente comunistas, para qualquer hegeliano-marxista (e eu certamente sou um), é essencial pensar em Hegel como um leitor/crítico de Marx.

Alguns na esquerda, principalmente alguns socialistas, estão mais inclinados a entender a teoria de Hegel sobre o Estado como uma forma de automediação de um povo. Ao fazer isso, eles parecem pensar que a ideia de Hegel da forma Estado fornece o caminho para a autoemancipação da humanidade. A interação com a lei desempenha um papel determinante. Mas, há também a abordagem liberal – que é, para ser claro, a leitura mais fraca de Hegel – que se concentra nas esferas da sociedade civil e da comunidade. Os adeptos dessa visão minimizam o Estado como uma contingência e entendem a emancipação em termos do livre exercício da vontade, enquanto o papel do estado é lidar com o funcionamento contínuo desse exercício por uma multiplicidade de sujeitos.

Na verdade, a realidade do Estado é alcançada apenas quando as esferas do público e do privado não são um e o mesmo. Isto é, ao contrário da sociedade civil, onde o indivíduo pode buscar seus interesses sem levar em conta os outros e seus respectivos interesses/objetivos, é no Estado que o dever e o direito se fundem. Isso coloca a Hegel contraposições liberais e conservadoras.

As ideias de ambas as orientações encontram sua base na teologia de Hegel. Podemos esclarecer esse ponto da seguinte maneira: enquanto os esquerdistas tomam sua teoria da comunidade de crentes como uma forma do que vem depois do estado (i. e., um proto-comunismo), os liberais a consideram a verdade da própria sociedade civil, e por essa razão, eles acham que, em certo sentido, ela é já existente. De certa forma, o espírito objetivo é ou pode ser (também) outras coisas que não o estado (i.e., o mercado, linguagem, etc.). Deste modo, tanto a esquerda quanto os liberais exploram uma ambiguidade na forma com que Hegel trata o cristianismo, o que permite a espiritualização da comunidade e a espiritualização do Estado.

Toda forma de Estado moderno tem um pouquinho – se é que possuem mesmo alguma coisa – em comum com as formas de organização política e social que Hegel chama de “Estado”. Essa não-identificação, ou negação determinada, da ideia de Estado com Estados individuais desafia a compreensão conservadora de Estado. Tal posição torna a compreensão da ideia de Estado de Hegel bastante difícil, pois não se compara a nenhuma forma particular de Estado, seja ela histórica ou real. Na “filosofia política” de Hegel, há pouco espaço para uma determinação positiva da “ideia de Estado”, cujo movimento é tanto a existência material quanto histórica de Deus, ou seja, da marcha de Deus sobre o Mundo. Assim, pode-se apresentar a seguinte hipótese: o que Hegel chama de “Estado” é uma condição da existência histórica.




[i] Max Horkheimer, The Eclipse of Reason (London / New York: Bloomsbury 1974), 4.

[ii] Ibid., 5.

[iii] Ibid., 11.

[iv] Ibid., 37.

[v] Ibid., 24.

[vi] Ibid., 27.

[vii] Ibid., 38.

[viii] Ibid., 43.

[ix] Ibid., 43f.

[x] Slavoj Žižek observou diversas vezes que algumas dessas doutrinas não são, em última instância, utilizadas para aliviar a mente, mas são, na verdade, utilizadas de forma similarmente instrumental: faça meditação transcendental todos os dias e será ainda mais competitivo e bem-sucedido no mercado. Cf. Slavoj Žižek, On Belief (Londres / Nova York: Routledge 2001), 11ff.

[xi] Horkheimer, The Eclipse of Reason, 71.

[xii] Alain Badiou, Trump (London / New York: Polity 2019), 32.

[xiii] Horkheimer, The Eclipse of Reason, 79.

[xiv] Ibid., 83.

[xv] Ver, por exemplo, a análise em: Alenka Zupančič, “Power in the Closet (and its Coming Out)”, in: Lacan, Psychoanalysis, and Comedy, ed. by Patricia Gherovici and Manya Steinkoler (New York. Cambridge University Press 2016), 227f.

[xvi] Hegel, Elements of the Philosophy of Right, p.22

[xvii] “Eu sou um luterano, e através da filosofia fui imediatamente confirmado no luteranismo”, Hegel: The Letters (Bloomington: Indiana University Press, 1984), p.520

[xviii] Hegel, Elements of the Philosophy of Right, p.22

[xix] G.W.F. Hegel, Encyclopedia of the Philosophical Sciences in Basic Outline (Cambridge: Cambridge University Press, 2010) p.60

[xx] Hegel, Elements of the Philosophy of Right, p.20

[xxi] Shlomo Avineri, Hegel’s Theory of the Modern State (Cambridge: Cambridge University Press, 1974), p.126

[xxii] G. W. F. Hegel, The Science of Logic (Cambridge: Cambridge University Press, 2010), p. 465

[xxiii] Slavoj Žižek, Sex and the Failed Absolute (London: Bloomsbury, 2019) p.351

[xxiv] Hegel, Elements of the Philosophy of Right, 279, §258

[xxv] Hegel, The Letters, p.325

 


Tradução: Marcus Apolinário
Revisão: Felipe Aiello
Original
Arte: Jayu U

Educação Pandêmica: um manifesto docente contra a distância social


Por Raquel varela e Roberto della Santa, Lisboa, Portugal


Introdução

A pandemia tornou possível o inimaginável – um laboratório, à escala de milhões de alunos, professores, pais e encarregados – em um simultâneo aqui-e-agora global, em quase todo o Planeta Terra, com cobaias humanas para aquilo que em língua portuguesa chama-se “Ensino à Distância” (EaD). As aspas têm a ver com sua difícil tradução aos idiomas do Norte global, por um lado e, por outro, demarca-se do que outrora, legal e conceptualmente, compreendia-se como o ensino remoto e e-learning. Os resultados da instrução remota emergencial foram inequívocos: é virtualmente impossível ensinar à e com distância social. Ou – se quiserem – a educação real pressupõe todo o seu contrário.

Este arremedo de ensino à distância não produz um conhecimento autêntico. São doses homeopáticas de informação fragmentada. Transforma-se o professor num instrumento de um computador que comanda programas, conteúdos, métodos, tempos e ritmos de trabalho. O docente passa daí a ser um apêndice da máquina, qual um novo Chaplin dos Tempos Modernos. Vai aumentar muito, por isso, o chamado “Burnout”, a alienação, o desalento. É o professor-operário – um novo patamar da proletarização e do mal-estar docentes no mundo – que abre um teste padronizado, ao pior estilo à americana, e os alunos respondem, já preparados para uma futura linha de montagem na qual vão ser inseridos por este neoliberalismo educacional. Expropria – ainda mais – os alunos das classes trabalhadoras e intermédias do conhecimento. O ensino à distância expropria o professor de ser criativo e desprofissionaliza-o, ainda mais, além de destruir sua vida pessoal, familiar, social. Ao fim ao cabo  – transforma sua casa numa unidade produtiva. 

Naomi Klein, intelectual norte-americana, explica em sua Doutrina de Choque como os governos e empresas usam as “catástrofes” para aplicar medidas que, antes das mesmas, seriam inaceitáveis para a população. A era da automação no ensino chegou e oferece-se como uma verdadeira distopia. Se não houver resistência social e política à falta de professores ou ao controlo do seu salário, serão permutados por artefactos, incapazes de substituir o trabalho docente. Porque, em todos os países onde está a ser introduzido o “ensino remoto”, aumenta o rácio de alunos por professor/computador (o que passa a ser uma espécie híbrida de professor-computador). Será este o tal “admirável mundo novo”?

Os alunos – estes mamíferos relacionais e seus telencéfalos altamente desenvolvidos – não vão conseguir adquirir ou produzir conhecimento algum, porque o conhecimento depende de uma relação volitivo-emocional, e colectiva, intencional, que se estabelece no tempo e no espaço a que se cria entre os seres humanos – vão tão-só consumir informação que podem fuçar em motores de busca, tal o Google, oráculo pós-moderno. Com o ensino à distância coisificamos assim professores e alunos. Nós amamos um ecrã bidimensional de computadores ou amamos quem podemos abraçar, cheirar e sentir? Entretanto, vendem-se Ipads e/ou Softwares, em massa, por exemplo, comprados pelos municípios, com os nossos impostos. E, a cereja por cima do bolo, os dados pessoais destes “educandos” e “educadores” são, automaticamente, “entregues” às empresas de estudos de mercado e pesquisa de opinião tão bem-utilizados por pessoas da índole de Steve Bannon contratados para elevar a popularidade de gente com o carácter de Jair Bolsonaro (alunos em Portugal já estão a usar testes, na escola pública, elaborados não por professores, mas por empresas privadas). Este é o tal “admirável mundo novo” da automação do trabalho em educação. Trata-se de facto da privatização do ensino através destas “parcerias” e a brutal redução de custos com os professores, gerando um mercado com fundos públicos, através destas parcerias, e diminuindo o défice público. Pagando menos a professores, e criando mais uma geração expropriada de arte, cultura e ciência, dependente de computadores – preparados para um novo mercado laboral automatizado. 

Finalmente, todos os estudos provam que mais do que 2 horas de ecrãs diários por dia, nas crianças e jovens, produzem efeitos neurológicos graves. Como é possível serem os próprios dirigentes educativos a impor ou autorizar 30 minutos que sejam de ecrãs em crianças cujo dia já é passado, fora da escola, enfiados em casa, a sós, com telemóveis, obesos, dessocializados, hiperestimulados e deprimidos? Este tal ensino à distância não é ensino… – é a automação da força de trabalho presente (professores) e futura (alunos).

Doença, mortes, desemprego e/ou lay-offs não são lá motes tranquilizadores. Mas para escrever a história recente é preciso – infelizmente – fazer uso delas. A combinação de uma brutal crise económica internacional à emergência pandémica global trouxe um enquadramento geral, em tudo catastrófico, para a vida de milhares de trabalhadores mundo fora. Não é possível – e nem é desejável – ignorar a magnitude dos problemas sociais, econômicos, políticos e/ou culturais envolvidos, sobretudo para aqueles os quais vivem de seu próprio trabalho. Neste sentido, consideramos as tentativas de eludir a excepcionalidade nas diversas esferas da vida uma verdadeira afronta à dignidade da pessoa humana, em geral. Na educação, em particular, trata-se de algo tanto ou mais desastroso ― haja vista que esta compreende justamente aquela actividade vital para a formação de seres humanos plenos. O presente artigo-manifesto parte de uma defesa essencial do direito fundamental à vida e ao trabalho sem deixar de lado o direito à educação e à cultura de todos. Enquanto professores de variados níveis de ensino e em diferentes áreas do saber tampouco podemos pactuar com a assim-chamada “doutrina do choque” que visa aduzir uma “distopia tecnológica”, da qual nos alerta a jornalista política Naomi Klein – em seus livros, ensaios e artigos de fôlego em sua especialidade.[1]

O impacto das medidas adoptadas no âmbito da COVID-19 no mundo do trabalho

As diversas estratégias adoptadas para conter a disseminação do coronavírus ou a covid-19 impactaram aproximadamente 2,7 bilhões de trabalhadores em todo o mundo, e cerca de 1,6 bilhões de estudantes, em mais de 170 países. O Banco Mundial defende que a interrupção do calendário letivo por lapso de “tempo indeterminado” causará “perdas educacionais” incontornáveis.[2] Tendo por premissa o inicial regime de quarentena e a necessidade de distanciamento físico formou-se uma verdadeira frente de organismos multilaterais, corporações transnacionais e de governos nacionais – uma espécie de coalização global do “ensino à distância” emergencial –, que, com um grau de coerência e de unidade poucas vezes visto na história da humanidade, se orquestrou para garantir, impulsionar e para coordenar o uso de pacotes instrucionais, plataformas digitais e tecnologias virtuais – da educação escolar básica ao pós-doutoramento académico: sem as nuances e os escrúpulos como da  Unesco ou da OIT, e.g., a OMS, UNICEF, Banco Mundial, OCDE, Bill and Melinda Gates, Lemann Foundation, Valhalla, Bank of America, AT&T, Novartis, Google, Microsoft, Facebook, Zoom, Moodle, Huawei etc. etc. etc. aliaram-se, mais que numa coalizão pela educação global, num verdadeiro “balcão de negócios” de certificação escolar – voltadas para criar mais-valor. Para além disso, há toda uma verdadeira parafernália de institutos, ONGs e de parcerias público-privadas – de carácter “filantrópico-mercantil” ou assemelhados – que todos os anos investe, maciçamente, na reconversão de seus capitais a partir de propostas, tanto curriculares quanto extra-curriculares, para a educação pública nos mais diversos níveis.

A centralidade da educação escolar presencial ou, enfim, da educação de facto

A nossa posição enquanto educadores é clara. O “ensino à distância” não pode (e nem deve) substituir-se à educação presencial clássica, baseada esta na instituição escolar ou universitária. Já por uma série de razões de fundo. Os saberes objetivos – ensinados em escolas ou universidades – pressupõe o processo de formação de capacidades intelectuais e morais que o estudante ainda não possui e que passará a adquirir, à medida que os novos conceitos científicos, filosóficos ou artísticos produzam aí novas subjetivações em seu pensamento e linguagem. Isso requer que a actividade de estudo dos alunos seja pedagogicamente guiada pelo professor, o qual oferece o suporte didático necessário para que a apropriação dos novos complexos categoriais seja, daí, objetivada por cada um deles, com seus diferentes ritmos e intensidades de desenvolvimento. O ato de ensino é uma produção não-material de tipo coetâneo similar ao que é, p.ex., o ato médico. Explicamos. Para além de produzir materialmente os seres humanos destacam-se das demais espécies não só por transformar a natureza, que nos rodeia, mas, também, por transformar a própria natureza humana, que nos habita. Além de hospitais, telemóveis, escolas e vacinas nós produzimos previamente conceitos, imagens, valores ou hábitos – isto é – bens não-materiais. Dentro da produção não-material existe aquela que se separa do produtor, tal qual uma tela pintada pelo artista, e aquela que dele não se separa, como o ofício do médico e do professor. Diagnosticar um paciente, e ensinar um aluno, é sempre uma “produção” coetânea ao “produto”, seja a cura do doente ou a educação do aluno. É por estas características específicas do labor de médicos, enfermeiros e professores que se torna tão difícil “desumanizar-se” a tais atividades vitais. A educação é produzida-consumida no mesmo espaço-tempo e supõe aí uma relação directa: essa interrelação. Os recursos didáticos, assim, são mediações para a realização de tal ato que é interpessoal e, portanto, pressupõe a presença, de professor e aluno, em interação recíproca, dinâmica, real. O fato de haver recursos não significa que tal ato deixe de existir ou deva ser substituído ou mediado na essência por artefactos.

Obviamente, consideramos bastante distintos os trabalhos do médico e do professor. Nesse sentido, os colegas poderiam perguntar-nos por que a comparação com um ofício tão eivado pela superfragmentação, hiperespecialização e tão subsumido à lógica da mercadoria, além de bastante hierarquizado, a partir da dicotomia conceção – execução. Mas apesar do labor médico ser muito mais bem remunerado e, óbvio, com maior prestígio social, ambos são fundamentais para a produção – e reprodução – do ser social.

As aplicações dos conhecimentos – científico-social, técnico, histórico-filosófico e artístico –, relacionados ao uso social da linguagem (e do pensamento) nas práticas sociais, requerem a mediação, decisiva, dos professores e das suas relações sociais nas instituições educacionais. Os professores podem e devem elaborar sínteses, seleção de informações e de contextualizações, no ambiente acadêmico, considerando a situação de todos os estudantes. O trabalho pedagógico dos docentes, assim, não é passível de ser desenvolvido de modo sistemático e aprofundado pela EaD – cada vez mais articulada a descritores de competências que suprimem o conhecimento e a sua aplicação social. Questionar o senso comum – e as disposições ideológicas que o conformam – demanda teorias, métodos, programas, categorias e experiências, que são daí vivificadas pela instituição escolar como um todo; não podem ser replicadas por simulações, simulacros.

Este ato não é redutível ao evento da assimilação de novas informações. Trata-se de todo um processo – de formação de novas capacidades cognitivas, afetivas, motoras e sensoriais. Além disso, pressupõe o envolvimento integral do estudante no processo de aprendizagem, não se limitando ao âmbito chamado logocêntrico, mas requerendo, necessariamente, a mobilização de vários processos afetivos, coparticipantes da própria construção de sentido daquilo que se aprende. Necessitamos referir que o ensino escolar não é uma atividade individual, de cada aluno, e que meramente ocorre em contexto grupal; mas sim um sistema de atividades, coletivo, o qual é, em seus fundamentos, compartilhado, em que as fertilizações recíprocas, entre crianças e jovens, têm um papel decisivo no desenvolvimento, afetivo-cognitivo, uns dos outros. Considerando toda essa complexidade do ato de ensino é evidente que não se pode produzi-lo, em toda a sua potência e/ou plenitude, com os nossos estudantes confinados em suas residências, sem possibilidade de encontro e de partilha com professores e seus colegas senão por meios virtuais, quando estes estão disponíveis. O currículo não é uma mera “lista” de temas e conteúdos que deva ser daí submetida a uma espécie de “checagem” final. A reposição integral de aulas clássicas seria o caminho ideal para qualquer educação plena de sentido, e a instrução remota emergencial não poderá mais que mitigar as situações excepcionais.

A importància fulcral do desenvolvimento integral

O “ensino à distância” – atividade não-presencial, aulas remotas e/ou e-learning – traz em si uma série complexa de problemas, gravíssimos, para o desenvolvimento integral das crianças e dos jovens para além da ampliação das desigualdades em educação e situações de sofrimento. Do ponto de vista da motricidade humana a sociedade já sofreu imensas alterações radicais,(*) porque vivemos hoje em dia num mundo digital que é avassalador, sobretudo para crianças e jovens. As crianças vivem hoje o seu corpo na ponta dos dedos. As tecnologias digitais de informação forçaram nosso corpo a funções outras, não-expetáveis, desde a filogénese da anatomia humana. Nas primeiras idades, precisamos mexer o corpo, necessitamos de ser activos, de ganhar mais autonomia, de arriscar. Interessa também exercer essa atividade que todos os animais fazem quando são pequenos: explorar, descobrir, arriscar. A gestão do conceito de tempo livre[3] após o advento da pandemia do novo coronavírus em todo o globo decretou uma espécie de estado de “emergência do brincar”, como já o referiu o Prof. Dr. Carlos Neto, da área da Motricidade Humana. O sofrimento, de nexo psico-físico, implicado em situações de angústia e desalento, nesta crise, foi agravado pela imposição em larga escala de corpos dóceis, mentes vazias e corações frios. A síndrome metabólica ocasionada – diabetes, obesidade etc. – potencia ao próprio Covid-19. Trata-se do aprofundamento de uma autêntica epidemia de “iliteracia motora” dos estudantes. Se a escola tradicional já era absolutamente concentracionária que dizer – então – deste novo fetichismo tecnológico?

Os riscos patogénicos existem, dizem as autoridades no assunto

É quase um consenso científico alargado – seja entre defensores ou detratores dos meios digitais – que a exposição ininterrupta e continuada ao esquema de estímulo e resposta, de plataformas virtuais, é factor de risco patogénico, especialmente grave para crianças em desenvolvimento. Os comportamentos repetitivos são aí assimilados – pelo córtex cerebral – enquanto uma forma de “satisfação.” Com isso é estimulada a liberação dos neurotransmissores – tal como a dopamina – conhecida como a “hormona do prazer.” O uso de jogos eletrónicos por tão-só oito minutos – segundo os estudos – já faz com que tal ocorra. Esta interação, via meios digitais, também ativa estes mesmos mecanismos cerebrais. É praticamente a mesma sensação dos clientes de cassinos em jogos de caça-níqueis e é análogo ao consumo de estupefacientes e psicotrópicos, tais quais heroína ou coca. Por isso decidiu-se – na nova Classificação Internacional de Doenças, da OMS – incluir a condição sob denominação de “transtorno de uso de videojogos”.[4] O padrão de comportamento frequente e persistente de adicção em telas pode levar a preferir ecrãs a qualquer outro interesse na vida. Os critérios estabelecidos para este diagnóstico irão incluir: não ter controlo sobre as frequência, intensidade e duração com que se conecta aos equipamentos, priorizar este tipo de interação virtual a outras atividades e manter ou acrescer a frequência, mesmo após consequências negativas. Ainda e quando devamos assumir uma postura crítica em relação à perspetiva das neurociências ou similares, que em geral são muito marcadas por um neopositivismo científico de base “biologizante” – o que se evidencia nas bases e perspetivas textuais do DSM 4 –, afinal, não há lugar para sujeitos sociais em dopaminas e nem se encontram agências humanas no intervalo das sinapses, o risco envolvido é auto-evidente em termos de desenvolvimento humano. E poderíamos discorrer ainda mais longamente sobre o assim-chamado “capitalismo da atenção” – um alerta popularizado pelo recente longa-metragem The Social Dilemma – no que tange às “redes sociais”, a disputar ferinamente as formas sociais de consciência, a elevação à enésima potência do pessimismo cultural de Theodor Adorno e Guy Debord.

O desenvolvimento de plataformas digitais no campo da educação, porém, é tanto mais grave. A interface digital desloca o foco atentivo do aluno do terreno típico a sinapses inferenciais, no qual se fundam as funções cognitivas avançadas, para zonas em que a motivação, habilidade e os “triggers” se tornam uma só e mesma coisa. Aí não conta se o aluno desenvolveu os seus processos psíquicos superiores, e.g., o tirocínio complexo, a atenção dirigida, a memória volitiva, o pensamento abstrato, a sensibilidade estética, a imaginação criadora e a conceptualização científica, num viés consistente e sofisticado. O retrocesso é autoevidente – para qualquer especialista em educação, psicologia e/ou neurologia. Mas se torna tão ou mais acintoso quando vem com a chancela de todos os Ministros da Educação. Para além de habituais redes sociais, televisão, telemóveis e videogames há, agora, horas a fio de “tele-escola” e/ou “ensino à distância” por muito, muito mais que o máximo rácio de 2h por dia. Não vai haver programa de incentivo ao brincar livre na rua ou uso público de bicicletas capaz de reverter isso se parte dos educadores públicos não se pronunciar de forma clara, eficaz, contra este vil descalabro.

Em defesa do ato de ensino, contra as “pedagogias das competências”

Já se passou da hora e da vez de falar a sério sobre a generalização da «pedagogia das competências» em lugar do ato de ensino do saber objetivo. As várias ilusões da assim-chamada “sociedade do conhecimento” estão absurdamente arraigadas em currículos, métodos e programas escolares. Já passou muita água por debaixo da ponte da polêmica educacional dentre os tradicionalistas e os renovadores para que o que é essencial venha à tona para a teoria crítica nestes terrenos. Talvez a mistificação mais primeva seja justamente esta. Oiçam: conhecimento e informação não são iguais. As assim-chamadas “competências” não podem e nem devem vir a substituir o saber objetivo. Para quem e para quê serve o ensino público? O pensamento educacional produzido na seara do Comissariado Europeu da Educação pode ser sumarizado na dita teoria do capital humano: o “aprimorar competências e os acessos à educação”, o “focar em necessidades do mercado”, “auxílio à Europa na concorrência globalizada”, “capacitação de jovens aos mercados laborais actual” e, como não poderia deixar de ser, “responder às consequências da crise econômica”. No cenário pós-covid-19, e na palavra de ordem do “novo normal”, acentua-se “novo” viés da digitalização 4.0. Os líderes europeus no último quartel de século consideraram que a principal missão da escola é apoiar os mercados e que a solução para as questões do desemprego e da desigualdade está em uma melhor combinação entre a “educação” e o “social” e as “necessidades” ditas “económicas”. A nova “doutrina de choque” radicaliza, ora, o aspecto de “distopia tech” na conjuntura global. Um verdadeiro abismo agiganta-se na assimetria entre McJobs, short-term on-the-job training, em referência a trabalhos indiferenciados, sem direitos laborais e de baixíssima remuneração, e MacJobs, empregos fixos, de alta qualificação e com segurança, a higher education schooling. Mas o contraste entre o mercado de trabalho de base e de topo, McDonald’s ou Macintosh/Apple, não chega para falar de formação integral. Essas mudanças no mercado de trabalho deveriam bastar para arrestar o discurso oficial – “sociedade do conhecimento” – nas políticas educacionais. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico é, então, forçada a reconhecer cinicamente que “nem todos terão uma carreira na dinâmica ‘nova economia’” – de facto, não a maioria – por isso currículos não deviam ser concebido como se todos pudessem “chegar lá.” A substituição dos saberes objetivos pelas ditas “competências” responde, assim, a uma demanda social e econômica crescente por flexibilidade laboral e plástica adaptabilidade da força de trabalho mundial. O programa educacional para o capital é bastante claro – até didático! – em suas “nobres” aspirações.

Mas uma educação autêntica só pode ser concebida como uma produção social das humanidades, isto é, no sentido da apropriação social de propriedades do mundo real (o bem ou “aquilo que podemos saber”; a ciência), da valorização (o justo ou “aquilo que devemos fazer”; a ética) e, enfim, da estética/símbolos/alegorias (o belo ou “aquilo que nos atrai”; a arte). Tais esferas da vida inserem-se na produção de ideias, projetos e signos que nos caracterizam como humanos. Em poucas palavras, trata-se da produção dos saberes, objetivos, sobre a natureza e a cultura, qual seja, o conjunto da produção do homem sobre a natureza e, inclusive, a própria natureza humana. O trabalho do docente lida com as mediações, de diferentes ordens, voltadas para a apropriação / objetivação do próprio mundo dos homens conquanto segunda natureza – autocriação autotélica –, tanto práxis como poiésis e, por isso mesmo, não deve ser reduzida à forma mercadoria. A racionalidade instrumental, pragmática e utilitarista prevalecente na ordem do capital não pode dominar a racionalidade crítica voltada para o horizonte da emancipação social.

Em geral, as competências estão associadas aos descritores de aprendizagem, de teor meramente operacional e utilitário, o que as afastam das ciências e do conhecimento. Para que este conhecimento se torne, ele mesmo, mercadoria, é preciso ressignificá-lo como uma “competência”, pois, desse modo, é possível incorporá-lo nos artefactos tecnológicos – ou, mais precisamente, nos algoritmos preditivos de inteligência artificial – e, também, nos vários testes padronizados de grande escala. Os Cursos Massificados à Distância (MOOCS) estão ancorados no “Projeto Tunning” de competências globais. É dessa maneira que os capitais exercem controlo activo sobre o que é dado a pensar nas escolas e universidades. Um exemplo, cá, pode ser algo ilustrativo. No último exame nacional de língua portuguesa houve certa revolta de base entre os melhores mestres de língua, literatura e de cultura. Perguntavam-se os mesmos: por que uma disciplina como o Português tem seu exame elaborado a partir de modelos-base das ciências duras? Eles mesmos responderam-nos. Há uma espécie de primado, destas mesmas, que já se transformou em ideologia oficial. É preciso que vigore um certo modelo de objetividade científica em que todas as perguntas solicitem uma única resposta prevista, um certo gênero de “orto-resposta”, fixada então com a força da lei nos chamados “cenários de solução”. Somente assim possibilitar-se-ia uma quantificação também “objectiva” em que o professor proletarizado, à condição de novo “corrector-autômato”, perde de uma vez por todas qualquer autonomia e poder decisório. Mas, quem examina o examinador?

A democracia de base, uma e outra vez

O que deveria ter sido feito quando das decisões sobre a educação em meio à crise? Permitam-nos começar pelo óbvio: nenhuma decisão poderia ter sido tomada sem uma ampliada consulta aos principais responsáveis directos pela produção e reprodução dos atos de ensino, a saber, o professorado mundial de todos os níveis, áreas e modalidades do ensino público. Só o empenhamento dos docentes pode fazer com que Decretos-Lei ou Portarias específicas sejam de facto e, de direito, não se reconvertam em letra morta. Por questão de democracia, logo, tão-somente os educadores poderiam ter chancelado às decisões que envolviam não só sua respectiva integridade psíquica e física mas, sobretudo, a sua profissionalidade científica. Não foi isso – não obstante – o que, realmente, ocorreu. Mas o que sucedeu-se em seu lugar? À manutenção dos exames finais nacionais em conformidade à calendarização preliminar e à perspetiva de, ainda que com as devidas adaptações e flexibilizações enunciadas, equivaler-se a programação letiva presencial, prévia ao regime “não-presencial” emergencial de instrução, assomou-se em Portugal a declaração do Excelentíssimo Senhor Ministro da Educação, em entrevista ao jornal Público e à radio Renascença, de que “temos de nos preparar para termos alguma conjugação entre ensino à distância e presencial” no próximo ano letivo. “Temos de nos preparar para em Setembro — ou não em Setembro, mas se calhar em Outubro, ou Novembro — termos o que os ingleses designam por ‘b-learning’, uma conjugação entre o ensino à distância e um ensino presencial”, afirma o Ministro da Educação, Sr. Tiago Brandão Rodrigues. O Sr. Ministro disse ainda que “a recuperação de aprendizagens menos consolidadas” do ano “terá de ser um dos pilares fundamentais no regresso às aulas” em 2020/2. Nenhuma achega ministerial poderia ser pior. Não só ficou estabelecido pelo Ministério que o regime não-presencial assume já força de lei equivalente ao ensino presencial – caindo por terra a distinção legal do «ensino à distância» – como assumiu-se a complementaridade e reversibilidade de uma modalidade lectiva à outra. Terá faltado o conhecimento sustentado ou a vontade política? Muito provavelmente os dois. Poderiam ter sido propostas atividades desafiadoras, interessantes, que buscassem cultivar e manter viva a chama do interesse e do gozo por aprender e conhecer. Que mantivessem um vínculo entre educadores e educandos. Que mitigassem o sofrimento dos alunos e tentassem um ponto de situação da comunidade escolar. Mas não. Seguiu-se na calendarização pré-crise. Perdeu-se a “oportunidade”, não de automatizar uma nova educação em distopia tech do digital 4.0, mas daquilo que os clássicos chamavam a suspensão do juízo da vida quotidiana em direção à genericidade viva da espécie humana. As plataformas unificadas de história da arte e da cultura constituíram-se no maior acervo estético histórico-mundial e tornou-se possível realizar visitas a coleções, museus e/ou inventários os mais espetaculares existentes sobre a face do globo,[5] e só aquilo que as redes mundiais de computadores reuniram no último período em termos de artes plásticas e visuais já bastaria para preencher – de beleza e dedignidade – os meses de reclusão física de milhões de alunos.

Não só colocou-se o país numa espécie de fábula esópica – e faz-de-conta – como ministrou-se conteúdos novos através do regime não-presencial. Novas aulas de matemática e de português, por exemplo, tiveram lugar. Isso é um absurdo para os alunos e ultrajante para os professores. E o que dizer das aulas de educação física ou de educação artística em regime não-presencial? O que ocorreu foi um arremedo – improviso indecoroso – não pode receber o nome de ensino, tampouco de ensino remoto.

Qual o papel das tecnologias na educação?

Não somos docentes contra o progresso técnico ou o desenvolvimento científico. Na verdade somos entusiastas dos fatores de reprodutibilidade técnica como socialização do saber-fazer e introduzimos extensa e profundamente diversos aparatos em projetos didático-pedagógicos a modo de suporte em nossos agrupamentos escolares ou campi universitários. Mas a imensa massa de Big Data é um conjunto sistêmico de eventos, processos, factos, notícias e informações sem a mediação fundamental de uma educação voltada para as artes, ciências, cultura e filosofia — a rede mundial de computadores é a navegação e os naufrágios, isto é, mais uma vez se prova fundamental, e preponderante, a função da educação escolar. A Internet sem mediações pode fazer proliferar fake-news, pós-verdades e uma série de outros malefícios. O ato de ensino é nada menos do que essencial também para mediar este mundo, verdadeiro universo, das redes. Isso dito, acreditamos que atividades mediadas por tecnologias devem ser democratizadas, i.e., com o acesso livre à Internet de qualidade social para todos os estudantes, professores, comunidade. Democratizar o acesso aos meios tecnológicos que possibilitam interações criativas na Internet trata-se de uma premissa fulcral do mundo digitalizado em que vivemos. A liberação gratuita dos vários espaços de encontros virtuais nas escolas, redes objetivando promover debates, sobre as crises em curso e o papel da educação, devem estruturar a universidades, institutos e escolas desde plataformas comuns para filmes e séries, acesso orientado a museus e artes plásticas, divulgação científica e tecnológica etc. etc. etc., abertos e em interação com as instituições de ensino, como novas sínteses para integração das educação básica, técnica, profissional e universitária. Além disso deve-se acarinhar, apostar e investir mesmo a sério no desenvolvimento de plataformas e programas públicos exclusivos para as escolas, universidades e institutos.

Dos direitos dos estudantes: por onde começar?

Anos a fio de cortes – nas instituições de ensino público – legaram a herança de uma educação precária, onde as desigualdades se tornaram um enorme factor de divisão. Os que têm acesso a escolas no topo dos rankings, a livros de preparação para exames e a explicações, os que não têm o peso do trabalho (re)produtivo e os que não têm de trabalhar para estudar tem daí uma educação absolutamente distinta da maioria da população que vive do próprio trabalho e que possui condições de vida extremamente degradadas. Para piorar, com o “ensino à distância”, estas desigualdades demonstram-se abissais. A crise, tanto a sanitária como a económica, não é da responsabilidade dos estudantes. O direito inalienável ao ensino público, de qualidade, gratuito e referenciado pela busca da igualdade social é algo essencial. Será justo que se mantenham as cobranças de propinas universitárias durante esta excepção? Será sensato continuar o ano letivo – do básico ao superior – em condições já tão disruptivas? Será honesto prosseguir com os exames nacionais, qual forma de entrada no ensino superior? Será lúcido perpetuar-se a austeridade orçamentária, os cortes e a deterioração neste sector? Precisamos de uma educação plena de tempo livre para o desenvolvimento humano com um sentido autenticamente omnilateral, de todos, como na representação do Homem Vitruviano:[6] não separar vertentes científicas e educacionais, trabalho manual e cerebral, teoria e práctica. A educação não pode ser uma mercadoria, mas sim um direito social inalianável, uma missão pública universal, que nos humaniza individual e coletivamente.

Dos deveres dos professores: o que fazer?

O maior inquérito nacional sobre condições de trabalho e vida na educação em Portugal é inequívoco ao indicar o desgaste profissional dos docentes.[7] São soldos baixos, horas largas e excesso de trabalho burocrático carente de sentido. Também é um imenso deficit na luta por reconhecimento, além das lutas por redistribuição, avaliações individuais de desempenho irrazoáveis, rankings e/ou metas, inconsequentes. Grande parte dos professores, ao final do dia, sente-se esgotada. Há vários factores de exaustão docente. O sofrimento psíquico – no trabalho dos professores – é, hoje, uma pandemia global. Como compreender ou explicar mal-estar tão difuso e generalizado nas funções, estrutura e dinâmicas de uma actividade tão vital para a produção social da humanidade? Além das novas condições de segurança sanitária – a exigir um menor número de estudantes por turma, mais lavatórios e salas de aula com ventilação – é urgente que um plano de carreiras atrativo e um aumento salarial substantivo seja destinado a este sector de trabalho essencial para as mais diversas esferas da vida. E um programa emergencial de recrutamento para suprir o boom de baixas por reforma acontecido durante a epidemia.

“Há sempre alguém que resiste”, canta-nos o bardo

O sistema educacional é em Portugal a rede pública mais importante do país. Em 2008 havia 2,2 milhões de pessoas matriculadas em todos os graus de ensino, cerca de 20% de toda população residente. Até ao início da primeira década do Séc. XXI a educação era, entre as funções do Estado, a que tinha peso maior: entre 1978 – 2008 esta despesa teve um aumento de 1,4% para 4,4% do PIB. Quase uma década após havia alterações, com o peso da saúde e, sobretudo, a dívida pública a sobrepor-se, mas a educação pública permanecia, em termos orçamentais, enquanto um pilar do Estado social no país. As despesas do Estado, em educação, representavam 3,7% do PIB em 2017. Em 2017, o número de inscritos no sistema educacional mantém-se acima de 2 milhões. Mas, esta responsabilidade não foi erguida ao nível e modalidade de compromisso congênere. E, o que já era mal, ficou péssimo com a progressão automática para uma “escola via gadgets”. Mas, como cantava o o músico Adriano Correia de Oliveira (“Trova do vento que passa”), que faz parte dio melhor da canção de protesto da história cultural portuguesa, «há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não.» É hoje urgentemente necessário criar-se a um verdadeiro estado de emergência na educação através de um movimento de contestação social que reinvente a crise enquanto crítica do tempo presente. As restrições normativas para uso de EaD como modalidade alternativa ao ensino presencial e o incumprimento das horas/aula para a integralização do ano letivo mediante as aulas remotas ferem, de morte, o sentido de justiça, o brio científico e a ética profissional do corpus docente. Os professores precisam puxar o freio de emergência do comboio da história e fazer, daí, saltar pelos ares o continuum da distopia tecnológica, da automatização do ensino e da destruição da razão, em defesa da ciência, do conhecimento, da função pública e, sobretudo, do papel da educação. O alfa e ômega desta iniciativa de luta só pode ser a reivindicação plena de uma efetiva gestão democrática da educação em todos os níveis, áreas e modalidades. Só comissões directivas ou de gestão podem propor um novo início com o “reset” de um modelo natimorto, com decisões tomadas por assembleias de escola ou por outro tipo de reuniões plenárias até realizar-se um congresso nacional de professores de todo o território, de províncias e capitais, de Norte a Sul. Se a primeira evocação inspira-se nas aclamadas Teses sobre o Conceito de História, de Walter Benjamin, aqui a sugestão é referência direta a Bertolt Brecht em sua Teoria do Rádio.[8] Ele exorta os realizadores para que não abasteçam ao aparelho produtivo, da indústria radiofônica, com gêneros literários de consumo “culinário”. Não existe nenhuma possibilidade de evitar o poder da desconexão por via da “organização dos desconectados”?, indaga-se o dramaturgo alemão. As plataformas digitais – Colibri/Zoom, Hangouts Meets, Microsoft Classroom, StreamYard ou Skype – inicialmente podem servir para colocar em contacto educadores de todas as partes do Planeta para tal efeito, enquanto não se desenvolvem novas mídias.

Neste sentido saúdamos a realização do I Congresso Mundial em Defesa da Educação Pública e contra o Neoliberalismo Educacional (Sept./2020), ocorrido de forma remota e com inscrições abertas e gratuitas. A organização do Congresso Mundial tem origem com a insatisfação das organizações de trabalhadores em educação em meio a realização do Fórum Mundial da Educação de 2015 – na Coréia do Sul –, quando as organizações privadas transnacionais do sector da educação dominaram o evento e pautaram as novas tecnologias de “ensino à distância”, a defesa da privatização da educação e não deram quaisquer tempos ou espaços para os representantes dos trabalhadores posicionarem-se. Como se dizia em Maio de 1968: não é mais que um começo. Que traga novo augúrio…


[1] Naomi Klein (Montreal, 1970) é autora de livros como No Logo: a tirania das marcas (2000), uma espécie de manifesto do movimento por uma outra globalização, e Doutrina do Choque: a ascensão do capitalismo de desastres (2007), no qual descreveu como as empresas aproveitam os desastres naturais, as guerras e/ou outros “choques” para daí avançar com as políticas de austeridade, o que produz, segundo a autora, o empobrecimento das populações, o enriquecimento de uma minoria sem escrúpulos e, normalmente, tumultos, os quais o Estado tenta debelar com violência e fraude. Em recente peça, afirma que: “Google e Amazon usam o caos para moldar um futuro digital sob seu controlo com mais confinamento: trabalho, escolas, médicos e delivery na porta de casa – numa parceria hipervigilante entre Estado e corporações”: https://outraspalavras.net/outrasmidias/naomi-corporacoes-tentam-acelerar-distopia-tech/ (Acesso a 03/06/2020).

[2] Atalho em: https://www.worldbank.org/en/topic/edutech/brief/edtech-covid-19. (Acesso a 03/06/2020). Sobre: LEHER, Roberto. Um novo senhor da educação? Revista Outubro, São Paulo, Edição n3, Fev/1999, 19-30.

(*)Ver BBC | Português: Dos pés à cabeça, os problemas de saúde que a tecnologia pode causar: https://www.bbc.com/portuguese/geral-46559922 (Acesso a 03/06/2020).]

[3] NETO, Carlos. “Decreto o estado de emergência para o brincar na infância” (em Entrevista ao Jornal I): https://ionline.sapo.pt/artigo/697544/carlos-neto-decreto-o-estado-de-emerg-ncia-para-brincar-na-inf-ncia-?seccao=Portugal (Acesso a 03/06/2020).

[4] Página web da OMS: https://www.who.int/fr/news-room/q-a-detail/gaming-disorder (Acesso a 03/06/2020).

[5] BALBI, Clara. Acessos ao Google Arts and Culture mais que dobram durante a pandemia, in: FSP: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2020/06/acessos-ao-google-arts-and-culture-mais-que-dobram-durante-a-pandemia.shtml (Acesso a 03/06/2020).

[6] Composição davinciana que ilustra as notas realizadas pelo autor (1490), inspirada na obra de Vitrúvio.

[7] Atalho ao INCTVE 2018: https://www.cics.nova.fcsh.unl.pt/research/publications/relatorios-de-projetos-1/inquerito-nacional-sobre-condicoes-de-vida-e-trabalho-na-educacao-em-portugal  (Acesso a 03/06/2020).

[8] BRECHT, Bertolt. O rádio como aparato de comunicação. Est. Av., SP,  v21, n60, p.227-232, Ago./2007: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-40142007000200018&lng=en&nrm=iso (03/06/20).

SOBRE A CONJUNTURA ATUAL- Alain Badiou

Em parceria com o LavraPalavra, publicamos hoje a tradução de um texto enviado por Alain Badiou quando da realização de evento – em que não pôde estar presente – na França, onde se discutiu a atual conjuntura.

Por Alain Badiou

O que eu gostaria de ter falado esta noite, mas não pude em razão de problemas pessoais, é uma resposta à questão seguinte, sobre a palavra que nos une em princípio, a saber, a palavra “lutas”, e a expressão “depois de dois anos de luta”.

Para resumir, eu diria o seguinte: em escala quase global, já faz alguns anos, sem dúvida desde a chamada “Primavera Árabe”, estamos em um mundo onde abundam as lutas, mais precisamente mobilizações e manifestações de massa. Proponho dizer que a conjuntura geral é marcada, subjetivamente, pelo que chamarei de “movimentismo”, ou seja, a convicção amplamente compartilhada de que grandes mobilizações populares vão sem dúvida chegar a mudar a situação. Vemos isso de Hong Kong a Argel, do Irã à França, do Egito à Califórnia, do Mali ao Brasil, da Índia à Polônia e em muitos outros lugares e países.

Todos esses movimentos, sem exceção, me parecem ter três características:

1. Eles são diversos em sua composição social, na origem de sua revolta e em suas convicções políticas espontâneas. E esse aspecto multifacetado também explica a razão de seu número. Não são agrupamentos de trabalhadores, ou manifestações de movimentos estudantis, ou revoltas de lojistas esmagados por impostos, ou protestos feministas, ou profetas ecológicos, ou dissidências regionais ou nacionais, ou protestos daqueles a quem chamam migrantes, e que eu chamo de proletários nômades. É um pouco de tudo isso, sob o domínio puramente tático de uma tendência dominante, ou de várias, dependendo da localização e das circunstâncias.

2. Resulta desse estado de coisas que a unidade desses movimentos é – e só pode ser, no estado atual das ideologias e organizações – estritamente negativa. Essa negação se relaciona, é claro, com realidades díspares. Pode-se revoltar contra a ação do governo chinês em Hong Kong, contra a apropriação do poder por bandos militares em Argel, contra o estrangulamento por parte da hierarquia religiosa no Irã, contra o despotismo pessoal no Egito, contra as maquinações da reação nacionalista e racial na Califórnia, contra a ação do exército francês no Mali, contra o neofascismo no Brasil, contra a perseguição aos muçulmanos na Índia, contra a proibição retrógrada do aborto e das precauções sexuais na Polônia e assim por diante. Mas nada mais, em particular nada que seja uma contraproposta de alcance geral, está presente nesses movimentos. No final, por falta de algo como uma proposta política comum nitidamente desatrelada das amarras do capitalismo contemporâneo, o movimento acaba exercendo sua unidade negativa contra um nome próprio, geralmente o do chefe de Estado. Iremos do grito “Mubarak, saia” ao “Fora Bolsonaro fascista”, passando por “Modi racista, vá embora”, “Fora Trump”, “Bouteflika, aposente-se”. Sem esquecer, é claro, as invectivas, os anúncios de demissão e a estigmatização pessoal de nosso alvo natural, aqui, que não é outro senão o pequeno Macron. Eu proponho então dizer que todos esses movimentos, todas essas lutas são, em última instância, “saiforismos” [em francês, dégagismes, de dégage, que, no uso corrente, corresponde a ‘sai fora’]. Queremos que o atual líder saia, sem ter a menor ideia de quem vai substituí-lo ou do procedimento pelo qual, se ele o fizer, teremos alguma garantia de que a situação irá mudar. Em suma, a negação que unifica não traz consigo nenhuma afirmação, nenhuma vontade criadora, nenhuma concepção ativa da análise das situações e do que pode, ou deve, ser um novo tipo de política. Na falta de tudo isso, acabamos – esse é o sinal do fim dos movimentos – chegando a essa forma última de sua unidade, que é a de nos levantarmos contra a repressão policial de que fomos vítimas, a violência policial que tivemos de enfrentar. Em suma, a negação de sua negação pelas autoridades. Ja conheci isso em maio de 68, quando, na falta de afirmações comuns, pelo menos no início do movimento, gritávamos nas ruas “CRS, SS!” ” Felizmente, mais tarde, na época, depois do primado da negativa rebelde, houve coisas mais interessantes, mas à custa, é claro, de um embate entre concepções políticas opostas, entre afirmações distintas.

3. Hoje, com o passar do tempo, todo o movimentismo planetário resulta apenas em um controle reforçado do poder estabelecido, ou em mudanças puramente de fachada que podem acabar sendo piores que o alvo original da revolta. Mubarak foi retirado, mas Al Sisi, que o substitui, é outra versão, talvez pior, do poder militar. O controle da China sobre Hong Kong acabou saindo fortalecido, com leis mais próximas das de Pequim e prisões em massa de rebeldes. A camarilha religiosa no Irã está intacta. Os reacionários mais ativos, como Modi ou Bolsonaro, ou a camarilha clerical polonesa, vão muito bem, obrigado. E o pequeno Macron está em muito melhor saúde eleitoral hoje, com 43% de opiniões favoráveis, não só em relação ao início de nossas lutas e movimentos, mas até mesmo em comparação com seus antecessores, tanto o muito reacionário Sarkozy como o muito socialista em pele de coelho Hollande, que, com o mesmo tempo de mandato de Macron hoje, se arrastavam em cerca de 20% de opiniões positivas.

Penso que uma comparação histórica se impõe. Nos anos entre 1847 e 1850, houve, em grande parte da Europa, grandes movimentos operários e estudantis, grandes levantes de massas, contra a ordem despótica estabelecida desde a Restauração de 1815 e sutilmente consolidada depois da revolução francesa de 1830. Por falta de uma ideia firme do que poderia ser a representação de uma política essencialmente diferente, para além de uma negação entusiástica, toda a efervescência das revoluções de 1848 serviu apenas para abrir uma nova sequência regressiva. Na França, em particular, o resultado foi o reinado interminável de um típico advogado do capitalismo nascente, Napoleão III, que Vitor Hugo chamou de ‘o pequeno Napoleão’.

No entanto, em 1848, Marx e Engels, que haviam participado dos levantes na Alemanha, extraíram as lições de todo o caso, tanto em textos de análise histórica como no fascículo intitulado As lutas de classes na França, como nesse manual, finalmente afirmativo, que descreve – para sempre, por assim dizer – o que deveria ser uma política inteiramente nova, que se intitula Manifesto do Partido Comunista. É em torno dessa construção afirmativa, que carrega o “manifesto” de um Partido que não existe, mas que deve existir, que começa, a longo prazo, outra história das políticas. Marx voltará ao assunto, 23 anos mais tarde, extraindo as lições de uma tentativa admirável, à qual falta, mais uma vez, além da sua heroica defensiva, a organização eficaz de sua unidade afirmativa: a Comuna de Paris.

Bem entendido, nossas circunstâncias são muito diferentes! Mas acredito que tudo gira, hoje, em torno da necessidade de que nossos lemas negativos e nossas ações defensivas sejam, em última instância, subordinados a uma visão clara e sintética de nossos próprios objetivos. E estou convencido de que, para chegar a isso, devemos lembrar o que Marx declarava ser o resumo de todo o seu pensamento. Resumo certamente ele mesmo também negativo, mas em tal escala que é sustentado por uma afirmação grandiosa. Trata-se do lema “abolição da propriedade privada”.

Examinadas de perto, palavras de ordem como “defesa de nossas liberdades” ou “contra a violência policial” são estritamente conservadoras. A primeira subentende que temos, na ordem estabelecida, liberdades verdadeiras para defender, quando, de fato, nosso problema central deveria ser que, sem igualdade, a liberdade é apenas um engodo: como o proletário nômade sem documentos, e cuja vinda até nós é uma epopeia cruel, poderia se dizer “livre” no mesmo sentido que o bilionário detentor do poder real, dono de um avião privado e de seu piloto, e protegido pela fachada eleitoral de seu representante no Estado? E como imaginar – se somos revolucionários consequentes, se sustentamos o desejo afirmativo e racional de um mundo diferente daquele que contestamos – que a polícia do poder estabelecido poderia ser sempre amigável, cortês e pacífica? Que ela responderia aos rebeldes, alguns dos quais encapuzados e armados: “O caminho para o Palácio do Eliseu? O grande portão, na rua a direita.”?

Mais valeria voltar ao cerne da questão: a propriedade. A palavra de ordem geral unificadora pode ser imediatamente, afirmativamente: “coletivização de todo o processo de produção”. Seu correlato negativo intermediário, de alcance imediato, pode ser “abolição de todas as privatizações decididas pelo Estado desde 1986”. Quanto a uma boa palavra de ordem puramente tática, dando trabalho àqueles a quem o desejo de negação domina, poderia ser: tomemos de assalto as instalações de um órgão muito importante do Ministério da Economia e Finanças, denominado Comissão de Participações e Transferências. Façamos isso sabendo que esse nome esotérico, “participações e transferências”, é apenas a máscara transparente da Comissão de privatizações, criada em 1986. E façamos saber que ocuparemos esta comissão de privatizações até ao desaparecimento de qualquer forma de propriedade privada que diga respeito, de perto ou de longe, a um bem comum.

Simplesmente popularizando esses objetivos, tanto estratégicos quanto táticos, já abriríamos, acreditem, uma nova era, depois daquela das “lutas” dos “movimentos” e dos “protestos”, cuja dialética negativa está em vias de se esgotar e de nos esgotar. Seríamos os pioneiros de um novo comunismo de massas cujo “espectro”, para usar a palavra de Marx, voltaria para assombrar não só a França ou a Europa, mas o mundo inteiro.

Tradução: Maria Betânia Ferreira Champagne e Daniel Alves Teixeira

Revisão: Pedro Rodrigues Naccarato

Texto Original: https://qg.media/2020/12/02/a-propos-de-la-conjoncture-actuelle-par-alain-badiou/

Violência na França dispara à medida que crescem as manifestações contra a brutalidade policial

[manifestante segura um guarda-chuva e uma placa dizendo “Para sua segurança, você não terá mais liberdade”, durante um protesto contra o controverso projeto de lei concernente à polícia, em Paris, 5 de Dezembro de 2020]

Tradução por Nicolau Namo Spitale

Revisão por Marcus Apolinário

Data de postagem do original: 05/12/2020

Link para o original: https://www.trtworld.com/europe/violence-erupts-as-france-protesters-rally-against-police-brutality-42092